1945



Quando o Júnior Fonseca, do Anime-Pró, me falou de 1945 Elen e Alexeu fiquei com o pé atrás. Mangá? Mangá de verdade? A autora é japonesa mesmo? Olha se não é material italiano. Será que a história vale a pena? Com um pouco de pesquisa, descobrimos que a edição japonesa era de 1997 e só havia saído na Itália em 2003. De qualquer forma, era a edição italiana que tínhamos em mãos e fui a encarregada de fazer uma primeira avaliação, eu leio italiano, embora nunca tivesse lido um quadrinho sequer nessa língua, ainda mais mangá. A capa original, cinzenta, melancólica, já é um aviso do conteúdo deste mangá. Os versos da contracapa, traduzidos abaixo, sinalizam claramente que a autora não fará concessões:

"Quem são aqueles? Não sabemos que coisa há debaixo a neve? Aqueles que agora jazem sepultados eram seres humanos... Mas eram realmente? Agora não soltam sequer um grito. Aqueles que estão correndo sobre os cadáveres... São eles os seres humanos?"

É difícil dizer quem são ou não são os seres humanos em 1945. Todas as personagens parecem muito vivas e palpáveis. Keiko Ichiguchi constrói um quadrinho que poderia bem ser um livro, ou mesmo um roteiro de cinema. Temos um romance central, embora o amor de Elen seja pela justiça e pela humanidade, não só por Alex. Temos os altos ideais, que são defendidos, seja pelo rebelde Maximillian, seja pela gentil Elen, ou mesmo pelo comprometido Alex. Não há espaço para eleger vilões ou heróis, pois cada uma das personagens tem suas motivações e elas são legítimas à sua maneira.

A história começa um pouco antes da tragédia da guerra, em um encontro entre a menina Elen e sua amiga judia, Rosa, com um garoto, Alex a, que se mostra muito gentil. A seqüência inicial é fundamental para compreender a mensagem da história, então, melhor não entrar em detalhes. Mas, ali, nasce o amor entre os dois. Afinal, não é o amor o propulsor de muitas histórias? No caso de 1945, o amor é importante, mas se não se resume ao amor romântico, ele vai além.

Se tivesse que dar um breve resumo da história diria o seguinte: Alemanha, anos 30. O poderio nazista está em seu auge e os exércitos do führer ameaçam boa parte da Europa, a vitória para alguns é certa. Elen é uma jovem estudante, cheia de vida e de sonhos que está vivendo seu primeiro amor. Ela não deseja se envolver com as organizações nazistas, mas não sabe ao certo o porquê. Seu namorado, Alex, é um vibrante membro da Juventude Hitlerista, absolutamente comprometido com o sistema, o futuro parece promissor, e o dela também. Só que Maximillian, irmão de Elen, está metido em atividades contra o regime e sua família corre perigo. Mas isso é só o início...

Keiko Ichiguchi mostra o comprometimento dos jovens alemães, de "raça pura" com a Alemanha. Rosa é presaNa defesa do nazismo ou contra ele, milhares perderam suas vidas. Ela visita os campos de batalha, a Frente Russa, uma carnificina que dizimou milhões de russos e também alemães, e começou a quebrar a máquina de guerra nazista. A autora não nos pouca das agruras e fosse seu traço mais realista e detalhista, 1945 poderia ter o efeito do desembarque da Normandia em O Resgate do Soldado Ryan.

Ali, na Frente Russa, os dois idealistas, Maximillian e Alex se reencontram lutando juntos por seu país ou pela supremacia alemã, ali, os dois começam a questionar seus ideais e sua humanidade. Os milhões sepultados sobre a neve são humanos? Ou humanos são os sobreviventes seus algozes? São os algozes também vítimas? Enquanto isso, Elen, que já se tornará suspeita por não ingressar na BDM (Bund Deutscher Mädel: Liga de Moças Alemãs) o correspondente para garotas da HJ (Hitler-Jugend: Juventude Hitlerista), se vê forçada a rever suas crenças, já havia enfrentado a prisão junto com o irmão, já havia questionado seu amor por Alex por conta da perseguição aos judeus colocando em risco seu primeiro amor.

Duas questões me chamaram a atenção na leitura de 1945, a discussão sobre a verdade e a necessidade de dizê-la, mesmo Na prisão.arriscando sua própria vida, e de como um ideal pode levar a desumanização, independente do lado que você escolheu. Maximillian, o líder da resistência, e o comandante de Alex nas SS são faces da mesma moeda, são capazes de sacrificar até os mais íntimos amigos por aquilo que acreditam ou desejam. Já Elen e Alex tentam achar a verdade, o amor e lutam por um mundo melhor.

Falando da arte da autora, ela é competente e seu traço é bonito e sem exageros. Em entrevista, Ichiguchi disse que sua autora favorita é Hagio Moto, isso diz muito. Seu trabalho lembra um pouco o dessa grande mangá-ka. Ichiguchi domina bem os recursos que tornam o shoujo mangá tão atraente, mergulhando no interior das personagens e expressando através da sua arte aquilo que elas sentem. Em alguns momentos ela opta por organização mais tradicional dos quadros, mas logo rompe com essa convenção e rompe com essa rigidez e nos oferece poesia em forma de mangá. Está longe de ser o melhor que já vi, mas a autora é muito competente e sua história e Campo de concentração.arte prende o leitor do início ao fim.

Um aspecto interessante de 1945 é que a organização secreta fundada por Elen e seu irmão foi inspirada na chamada Sociedade da Rosa Branca (Die Weisse Rose). Ela era formada por estudantes que distribuía panfletos contra o regime e que eram colocados nas caixas de correio. A autora muda os nomes das personagens da Sociedade da Rosa Branca, mas elas batem perfeitamente, são Sophie Scholl, Hans Scholl e um amigo, de nome Christoph Probst. Foi feito um filme na Alemanha, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006, sobre Sophie Scholl, em português seu título é Uma Mulher Contra Hitler. Eu não assisti, e no momento em que escrevo ele ainda não está nas locadoras. Assim, somente o Alex, o menino amado pela protagonista Elen é fictício de verdade.

Juntos no campo de batalha.

1945 vem fazer par com Adolf em nossas bancas. São abordagens diferentes, e Tezuka é Tezuka, mas Keiko Ichiguchi também merece ser lida. É um olhar feminino e humano sobre os dramas e contradições da II Guerra. Pode cativar adultos e adolescentes, mas me parece suprir uma lacuna. Afinal, faltam quadrinhos humanos e reflexivos sobre a Guerra, sobre o papel da Alemanha, acessíveis aos mais jovens. Mesmo no cinema, fala-se muito do drama das crianças, mas os adolescentes e suas angústias ficam de fora. Swing Kids com Robert Sean Leonard e Christian Bale que está fora de catálogo e Os Filhos da Guerra, que é alemão, são os únicos que me vem em mente. Seria muito bom se alguém filmasse 1945. Bom e necessário. O roteiro já está amarradinho, parece feito para ser filmado.

1945 estará saindo este mês, pela New Pop, uma nova editora.Falando de liberdade. É um grande presente e ver uma editora nova começar lançando um shoujo mangá é animador! O mangá já foi publicado no Japão, na Itália, e na França. Sempre com muitos elogios. A autora, Keiko Ichiguchi, é uma japonesa que produziu alguns mangás no Japão, mas como é formada em italiano decidiu se mudar para a Europa, onde trabalha como tradutora e produz seus próprios mangás que são sempre publicados também em seu país de origem. Só por curiosidade, é ela que traduz Angel Sanctuary na Itália, entre outras séries.

Keiko Ichigichi ou Keiko Sakisaka, como também é conhecida em seu país, estreou na Bessatsu Shojo Comic em 1988, produziu alguns mangás para a revista, mas como ela mesma diz em seu site oficial, não tinha o pique para produzir na velocidade que se exige de uma mangá-ka no Japão. Daí a opção por uma carreira alternativa. Na Itália, ela traduz, publica livros sobre cultura pop japonesa, além da revista semestral Keiko World com seus mangás e artigos. Tem um currículo extenso. O site da Keiko em italiano diz muita coisa sobre ela. Li alguns de suas matérias e elas são muito interessantes, e se todos os seus mangás se aproximarem da qualidade de 1945... Bem, quero ver mais coisas dela no Brasil!




Webmistress: Valéria "Utena-sama" - 14/02/2007


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