Entramos agora em um terreno bem interessante,
pois efetivamente as séries das quais trataremos nessa página representaram uma mudança radical dentro do
gênero shoujo. Qual fã de anime e mangá nunca ouviu falar de yaoi?
Pois é, embora o yaoi
tenha surgido nos fanzines, ou seja, à margem do mercado profissional de mangá,
o amor entre dois meninos foi retratado pela primeira vez dentro do mainstream em uma revista profissional, a "Weekly Shoujo Comic".
O ano é 1974 e Hagio Moto, jovem manga-ka consagrada por seu talento, cria uma história de
amor extremamente
tocante, só que dessa vez não há nenhuma menina na história, o casal
em questão é formado por dois meninos!
Ambientada em um colégio interno em uma Europa idealizada - boa parte
das histórias shoujo da época se passavam em lugares que ou não eram o
Japão ou vagamente pareciam com o país - na virada do século XIX para o XX, O
Coração de Thomas se inicia com o suicídio de um jovem de 14 anos,
Thomas. Antes de morrer, ele deixa uma última uma carta de amor para
Yuri, um colega: "Para Yuri, uma última vez, este é o meu amor. Este
é o som do meu coração.". No mesmo dia da morte de Thomas, um outro
aluno, Eric, chega ao colégio. Ele é praticamente idêntico a Thomas. Através
de Eric, e a despeito de sua resistência, Yuri, que havia rejeitado o amor de Thomas, consegue pouco a pouco
superar seu remorço e sua dor.
No decorrer da história, fica claro que Yuri também
amava Thomas mas se sentia sujo e indigno do afeto do outro menino, por
ter sido violentado por um grupo de garotos mais
velhos quando era recém chegado à escola. A cena, aliás, é extremamente forte, não por mostrar qualquer
lampejo de violência sexual explícita, mas pelo talento com que Hagio Moto desenha as expressões faciais. Mesmo
eu que leio muito pouco em japonês, consegui entender e me sentir tocada pela história.
Por fim, Yuri consegue se reconciliar consigo mesmo tornando-se
padre. Esta decisão se explica, de acordo com o que li, porque dentro
da cultura japonesa todos, ao morrerem, retornam para deus ou Budha. Assim, tornando-se
padre, Yuri, estaria realizando uma hierogamia, isto é, se casando com a divindade, e,
em última instância, com seu amado Thomas.
O interesse das meninas japonesas por esse tipo de romance
tornou-se, a partir de então, uma febre. Os motivos são discutidos por fãs, psicólogos, antropólogos e
outros especialistas. A hipótese que mais me agrada, embora certamente não possa ser colocada como
a única explicação para o fato, é que quando as protagonistas são homens - que muitas vezes explicitam
atitudes e sentimentos que poderiam ser rotulados de tipicamente femininos - as leitoras
podem se projetar em uma das personagens sem as limitações impostas às mulheres por uma sociedade
extremamente desigual como é a japonesa. Só para reforçar a questão, podemos citar que no live action feito para a TV
de Tooma no Shinzou todos os papéis eram representados por mulheres, reafirmando a idéia de que o assunto da série eram os sentimentos femininos.
De qualquer forma é preciso refletir muito sobre a questão ainda.
O Coração de Thomas teve somente três volumes e foi publicado pelo selo Flower Comics.
Como disse no início, o talento de Hagio Moto já era bem conhecido
antes de Tooma no Shinzou e esse seu mangá só veio a aumentar
sua fama, seja pela história e desenhos impecáveis, seja por ter inventado um subgênero dentro do
shoujo, o shonen-ai. Lembrem-se que shonen-ai não é yaoi. O mangá de Moto não mostra sexo explícito
nem nada que passe perto disso (nem beijo nós temos), simplesmente representa os sentimentos com delicadeza.
Também não se deve creditar a autora a moda da
androginização das personagens dos mangás femininos, pois
isso já pode ser percebido em muitas obras anteriores.
Hagio Moto também não deve ser creditada como
uma autora de shonen-ai, pois tem uma obra extensa (ainda está em atividade) e multifacetada. Aliás,
ela debutou no longínquo ano de 1969 e continua produtiva até hoje.
A autora, nascida em 1949, faz parte de uma geração brilhante e criativa
(O Nijuuyo-nen Gumi) que revolucionaram o shoujo mangá. Hagio Moto produziu obras dos
mais diferentes tipos, como o gótico "Poe no Ichizoku" (A família Poe - 1972), e, principalmente,
várias pérolas da ficção científica, sempre trabalhando com questões de gênero e construção do que é feminino e
masculino. Entre suas obras de ficção científica é possível destacar "A'A Prime" (1984) que tem a clonagem como pano de fundo;
"Juuichinin Iru!" (Eles eram 11! - 1976), que lembra um pouco "Alien, o Oitavo Passageiro" e virou longa animado; "Staa Reddo"
(Star Red - 1978-1979) que mostra uma Terra decadente onde não existem mais mulheres; e "X+Y" que discute identidade sexual ao retratar
um unicórnio (humanos de uma linhagem geneticamente alterada)
que, por causa de um aparente caso de hermafroditismo, descobre que é mulher, apesar de haver sido criado como um rapaz e se recusa a aceitar a
situação. Por três vezes
(por "Staa Reddo", "X+Y" e "Gin no Sankaku") a autora recebeu o
Seiun Award, o equivalente ao prêmio Hugo americano que é dado aos melhores autores de ficção científica, o que só confirma a sua competência.
Apesar do talento inegável, Hagio Moto ainda precisa ter sua obra amplamente divulgada no Ocidente. Alguns de seus mangás
curtos de ficção científica foram lançados pela Viz nos EUA, mas isso representa muito pouco
diante da qualidade e diversidade do trabalho da autora. Para se ter uma idéia da produção de Hagio Moto, dê uma olhada nesse
site. Eu, depois de ler algumas obras da autora em inglês, cai de amores pela sua
competência, imaginação e sensibilidade. Espero que, um dia, possamos ter algo dela no Brasil, só que do jeito que nossas
editoras são obtusas, eu duvido...