De Waki Yamato,
é mais uma daquelas histórias que marcaram sua época e continuam sendo lembradas até hoje,
tendo versão mangá (em diferentes formatos), anime e live action. O título poderia ser traduzido mais ou menos como
"Aí vai uma senhhorita moderna", mas nas páginas da internet os nomes podem variar muito, pois
o anime foi exibido na França, com o nome deMarc et Marie,
e na Itália, onde o mangá também foi publicado, chama-se Mademoiselle Anne, fora em outros países que nem faço idéia.
Como
a série nunca apareceu no Brasil,
não há um título nacional "oficial", assim como nos EUA, onde a série pode ser aparecer com o título de Modern Girl
ou Miss Modern.
O mangá começou a ser publicado em 1975, na Friend,
e durou até 1977, tendo 7 volumes, mais um gaiden
que conta o destino das personagens secundárias.
Haikara-san ga Tooru tem como protagonista Benio Hanamura, com 17 anos no
início da história, a senhorita moderna em questão,
e começa em 1916, na chamada Era Taisho (1911-1925). Benio é filha
de um militar viúvo que decide
casá-la com um jovem tenente, Shinobu Ijuin. O casamento arranjado era, na verdade,
fruto de uma velha promessa feita
pela avó de Ijuin ao homem que amara na juventude e com quem não pode se casar por
causa das diferenças sociais...
Para a avó do rapaz e o pai de Benio, caberia aos jovens realizar o sonho dos dois.
Benio, entretanto,
não tem intenções de se casar. A moça deseja uma carreira e quer distância de tudo
o que lembre o passado, incluído
aí os casamentos arranjados. Também quando a questão é vestuário, a moda ocidental tem a preferência de Benio, embora ela seja
vista usando muitos quimonos no decorrer da série. Sendo a chance
perfeita para a autora mostrar todo o seu talento nesta área, pois os figurinos são belíssimos. Benio freqüenta uma escola feminina que visa formar
esposas perfeitas, e tem como colega de classe
Tamaki Kitakoji, de origem nobre, e que apesar de partilhar das idéias de Benio, é vista por todos como
uma dama exemplar.
Já o melhor amigo de Benio, que ela conhece desde a infância,
Ranmaru Fujieda, é um onagata - ator de teatro Kabuki especializado em papéis
femininos. Só que o rapaz não é homossexual mas absolutamente apaixonado por Benio.
Benio conhece o tenente, sem saber que este é seu noivo, e tem uma péssima impressão dele.
Quando descobre que
é o seu prometido, o primeiro sentimento se converte em absoluta antipatia e revolta.
Cabe aqui um comentário, Ijuin é filho de um diplomata japonês com uma dama alemã. O casamento não era
aprovado pelas famílias,
e depois do nascimento do menino, a mãe dele é levada embora pelos parentes. O pai, amargurado,
deixa o filho com os avós e vai embora,
morrendo anos depois.
Mas Benio não quer saber de nada, e o casamento arranjado faz com que a moça
queira romper mais do que nunca com a sociedade patriarcal que a cerca e apronta muito quando é enviada
para a casa do noivo para que aprenda como ser uma boa esposa. Tudo na sua criação havia sido "muito livre",
e o ambiente refinado e tradicional a sufoca, com o tempo, entretanto, ela se afeiçoa aos avós de Shinobu, à governanta
disciplinadora (ela é um estereótipo ambulante) e faz com que o velho conde Ijuin passe a ter idéias mais "modernas".
O tom da história é de comédia rasgada até que
Shinobu é dado como morto na guerra (I Guerra?). Neste momento, a autora reverte a situação para o drama pesado,
e Benio, que na verdade o amava,
veste o kimono branco de viúva no enterro do rapaz e corta o cabelo iniciando assim uma nova fase na sua vida.
Só para esclarecer, o cabelo tinha (e talvez ainda tenha) um significado muito grande dentro da cultura japonesa,
estava associado a nobreza e a ao status da pessoa.
Já o kimono branco, cor do luto no Oriente, era recebido pela noiva quando esta
se casava e deveria ser envergado nos funerais do marido. A mãe de Benio nunca pode usá-lo, a filha tomo-o para si.
A partir de então, Benio decide entrar no mercado de trabalho e, após alguns problemas, torna-se jornalista.
Seu patrão, Tosei Aoe, que parece muito com
Oscar da Rosa de Versalhes, é riquíssimo, tem um noivado arranjado com uma moça muito feia, tem uma mãe preconceituosa e
dominadora, e tem alergia à mulheres, mas nada acontece quando está com Benio... Depois de alguma hostilidade
ele se apaixona por ela.
Mas eis que Shinobu retorna desmemoriado e casado com, Larissa Mikhailovna, uma duquesa russa. A moça o tinha salvo
e como ela parecia muito com seu finado marido, o
coloca em seu lugar (algumas páginas dizem que os dois eram irmãos, filhos do mesmo pai). Quando Shinobu retoma a
memória não pode abandonar
Larissa, por gratidão e porque
descobre que ela está tuberculosa. Já Benio, frustrada, decide se casar com Tosei. Obviamente, a autora se
encarregará de resolver as coisas, unindo Benio e Shinobu e dando um final feliz para as personagens secundárias. Afinal,
a série tem drama (o casamento de Benio é interrompido pelo terrível terremoto de Tokyo de 1921) mas não é uma tragédia. ^_^
Haikara-san ga Tooru
não é considerada uma obra revolucionária para os anos 70,
estando bem longe
do que de mais avançado era produzido na época pois segue o estilo mais tradicional
dos shoujo mangás, no entanto, rompe abertamente com a idéia de que o grande objetivo de vida de uma menina é o
casamento.
Benio representa a mulher moderna que além do amor, quer ter uma carreira que lhe dê satisfação, quer um lugar
só seu no mundo e não só no lar e no coração
de um homem. Sua amiga Tamaki também é uma moça moderna que luta para ir à universidade e se torna escritora. Obviamente,
ela também encontra o amor nos braços de um sujeito que além de pobre (ela é nobre e rica) que a princípio ela
odeia por ser grosseiro e machista. Só digo que ela termina por amolecê-lo e rompe com tudo para ir atrás dele.
Ah, e o mangá também tem um toque de shounen-ai (leve, bem leve), pois Tosei, depois de perder Benio, decide
viajar para tentar esquecê-la. Na Europa, acaba conhecendo uma moça que lembra muito a sua amada... só que depois
descobre que ela é ele. Desiste? Nem pensar! ^_^
O traço de Waki Yamato
e a forma como esta contou as aventuras de Benio tornaram a história um clássico. Seguindo
o sucesso do mangá, a Nippon Animation produziu uma série animada que foi ao ar de junho de 1978 até março de
1979, contando
com 42 episódios ao todo. Além da série de TV também foi produzido um filme em 1987, tendo como protagonista
Youko Minamino que havia interpretado
Saki Asamiya na segunda série live action de Sukeban Deka, outra das séries de shoujo mangá mais amadas dos
anos 70. Sinceramente, foi uma grande perda não termos assistido nem
as aventuras em anime de Benio.
Como explicar o sucesso de uma obra aparentemente tão comum?
Eu acredito que através da persongem Benio,
muitas meninas e mulheres se viram identificadas na sua busca por um espaço que era negado às mulheres e pela
projeção no Ocidente de uma sociedade melhor, na qual as mulheres tinham
vez e voz. A história de Benio se passa no
início do século XX mas seus anseios ainda eram os mesmos de muitas japonesas dos anos 70: uma carreira,
igualdade com os homens e
liberdade de escolha. Fora isso, Yamato Waki é uma das mais talentosas
mangá-kas de sua geração e o que somente confirmou com suas obras posteriores como Asaki Yumemishi, a quadrinização da História de Genji,
considerado o primeiro romance "moderno" e que foi escrito no século XI. Hoje a autora, que continua na ativa, está publicando na revista Be Love que
é voltada para mulheres adultas.
Torço para que algum fansuber digital ou as
Technogirls se interesse
pela série para que eu possa assistir mais do que a abertura e o encerramento dessa obra que parece ser
tão interessante. Além disso, seria muito bom se algum grupo decidisse traduzir o mangá, afinal, clássicos estão na moda e
já temos gente traduzindo a Rosa de Versalhes e Glass Mask.