O mangá de Ace Wo Nerae (Mantivemos o nome original porque não existe um título em língua portuguesa,
mas a tradução poderia ser "Alcançando o Ace", ou algo assim)
terminou de consolidar o mangá feminino de esportes, apresentando um traço realista até então nunca
visto nos
mangás shoujo. A importância dessa série é tão grande que terminou por influenciar esteticamente,
desde Ryoko Ikeda até o famoso Gunbuster (Top wo Nerae no original),
estupendo anime da Gainax.
Aliás, eu descobri a primeira página sobre essa
série graças a Gunbuster.
Ace wo Neraetem como autora Sumika Yamamoto, e
começou a ser publicado, na revista
Margaret, no ano de 1972, sendo que a primeira série de
quadrinhos durou até 1975.
Seguindo os passos do mangá, o anime, da Tóquio Movie Shinsha,
estreiou logo em seguida em outubro de 1973, durando até março de 1974.
A primeira série de TV (Sim,
ou vocês acharam que ia ficar só nisso?
)
teve 26 episódios cobrindo somente a primeira parte da história do mangá original. O
diretor geral e o diretor de arte da série foram Osamu Dezaki e Akio Sugino,
guarde bem esses nomes, porque eles vão estar
diretamente envolvidos na produção de todo o material animado da série e,
também, na animação de Brother, Dear Brother.
Dezaki também foi o diretor do episódio 19 ao 40 da
Rosa de Versalhes só que tendo Shingo Araki como diretor de arte.
Esses dois diretores vão
consolidar um estilo seja no character design, seja na forma de contar histórias sempre
carregando nos simbolismos visuais que vão marcar os momentos chave das tramas. Mas vamos
ao básico da história:
Hiromi Oka acabou de ser
admitida no Colégio Nishi.
Esta escola é famosa por causa do tênis e tem como principal jogadora do time feminino,
a ídolo de Hiromi,
é Reika Ryuuzaki que é chamada de "Ochifujin" algo como "rainha das borboletas".
A menina, então, entra para o time de tênis simplesmente para poder estar
perto dela e não demonstra muito entusiasmo ou talento para esporte.
A chegada de um misterioso
treinador, chamado "carinhosamente" pelas alunas de "oni-couch" algo que traduzindo à grosso modo
seria "treinador-demônio" por ser muito rígido e mesmo cruel em seus treinamentos,
acaba mudando sua vida.
Depois de humilhar boa parte das alunas calouras , inclusive a melhor amiga de Hiromi,
em uma apresentação para testar suas habilidades, a menina enfrenta o treinador. Não se sai nada bem,
mas termina por impressioná-lo e, no outro dia, ele escolhe Hiromi para integrar o time
de elite da
escola para desespero da veterana jogadora Kyoko Otowa que acreditava que aquele lugar
deveria ser seu. A partir daí, Hiromi vai sofrer pressões das
colegas, principalmente as veteranas, ser humilhada, tentar fugir da responsabilidade que lhe foi imposta,
se apaixonar pelo jovem Tondouh que é o principal jogador do time masculino da escola e ser
perseguida por Kyoko Otowa, acusada pelo treinador de não
ter estilo próprio e ser mera imitadora do estilo de Ryuzaki. No final, Otowa é
derrotada por Hiromi, agora disposta a ser uma boa jogadora, em uma partida emocionante que decidiria quem ficaria com a
vaga no time de elite. A partir de então, Hiromi vai ter que mostrar o seu valor, se superando
sempre,
deixando progressivamente
de ser uma menina insegura e deslumbrada para se tornar uma mulher madura e uma atleta completa.
Quem viu Gunbuster já reconheceu a história, não é? Tire as raquetes
e bolinhas, coloquem mechas (rôbos gigantes) e temos o início da série da Gainax. Fora isso, Reika Ryuzaki
certamente serviu de modelo visual tanto para a Miya-sama de
Oniisama E... quanto para a Isumi de
Princess Nine. Aliás, a elegante e
competente tenista é bem mais gentil
e honesta com a protagonista do que Miya-sama, ou mesmo Isumi, no que ela se aproxima da
sempai de Noriko em Gunbuster, personagem também visivelmente inspirada em na "Ochifujin".
Ah, assim como em Gunbuster,
Reika também se apaixona pelo "treinador" só que o futuro não lhe é tão gentil
como a sua réplica de Gunbuster.
Além da resistência do "oni-couch", Reika também tem uma rival na quadra e no coração de Jin,
a meio-irmã do treinador. Essa personagem, aliás, é a que mais sofre
mudança de aparência no anime, pois de elegante e forte como uma amazona,
se torna uma muralha sem nenhuma graciosidade, lembrando mais um jogador de
futebol americano (com armadura).
Já Hiromi é o protótipo
da aprendiz morena, franzina (No mangá conforme o traço da autora vai se transformando,
Hiromi vai ficando cada vez mais atlética
e mesmo até um pouco marombada) que acaba sendo escolhida para uma tarefa que parece
grande
demais para ela, como
acontece com
Noriko de Gunbuster e com a Maya
de Glass Mask, só para citar alguns exemplos. Interessante é que ao contrário da primeira série de anime
(depois isso é corrigido no movie) é o saque fortíssimo da menina que impressiona o exigente treinador e, não,
sua perserverança.
Além da série original,
Ace wo Nerae contou com outra série de mangá chamada Shin Ace wo Nerae (1978-1980), outra
série de TV, com o mesmo nome da segunda série animada, com 25 episódios (1978-1979); um movie chamado Jump High Hiromi lançado em
1979 e relançado em 1987; duas séries de OVAs: Ace wo Nerae 2, de 1988, com 13 episódios e Ace wo Nerae - Final Stage,
com 12 episódios exibidos entre 1988-1989. Juntando tudo são 18 volumes de mangá, 51 episódios de tv, 1 movie e 25 OAVs. É ou
não é um número respeitável? Para completar, em 2004 foi exibida uma série live action de Ace Wo Nerae com 9 episódios. A produção coube
à tv Asahi com Aya Ueto, ídolo teen no Japão, o papel de Hiromi. Como a
série foi um sucesso, já fizeram um especial e nada impede que outros sejam feitos, afinal, o mangá de Ace Wo Nerae
é bem longo.
Ace wo Nerae foi exibida em vários países sendo muito conhecida na França (Jeu, set et match),
na Itália (Jenny, la tennista) e na Espanha (Raqueta de Oro). Nos EUA não foi exibido nada da
série mas as TechnoGirls estão fansubando
a série, que recebeu o nome de Aim for the Ace, e eu pude finalmente assistir os primeiros 4 episódios.
Recentemente, um fansuber digital decidiu legendar Ace Wo Nerae e já soltou o movie de 1979 e os
mesmos quatro episódios legendados pelas TechnoGirls.
Para pegar Ace Wo Nerae no Torrent, basta ir na página do ILA.
Uma das coisas mais legais
de começar a assistir Ace Wo Nerae, foi sentir o clima
anos 70 que marca a aparência e o figurino das personagens, em especial os óculos imensos que Hiromi usa em casa, ou o encerramento que
mostra a menina em diversas roupas da época. Se você quer saber mais sobre Ace wo Nerae, recomendo duas excelentes
páginas que me ajudaram muito aqui: a das TechnoGirls e uma página espanhola,
esta exclusiva da série. Ah, a trilha sonora da série é bem empolgante, em especial a abertura e o encerramento da série original de
1973. Vale a pena ouvir.
Que mais eu posso dizer senão que Ace wo Nerae é
mais uma daquelas lacunas imperdoávei da TV brasileira e mais uma das grandes evidências de que tivemos pelo menos uma década perdida em relação às
grandes produções japonesas?
Mas fazer o que? Apesar do Guga e da Maria Esther Bueno, aqui é o país do futebol, não do tênis!