SORA WA AKAI KAWA NO HOTORI

ANATOLIA STORY


No ano de 2004 tomei contato com um mangá que se tornou rapidamente um dos meus favoritos. Seu nome é Anatolia Story. Demorei um pouco para começar a leitura, mas depois que comecei, não pude mais largar. Eu já conhecia a história em linhas gerais, acompanhava oYuuri trabalho da veterana Chie Shinohara, mas do mangá tinha lido as primeiras páginas somente. Pior para mim por dois motivos: primeiro, porque a história é tão boa que deveria ter lido antes; segundo, porque sendo tão legal a história quero ler mais e, agora, só comprando os volumes da VIZ, que licenciou a série nos EUA. Veja dó que tragédia, quanto mais felizes são os fãs de shoujo nos EUA, mais prejudicados saímos nós que lemos scanlations na net... Agora compro regularmente as edições americanas, mas ainda demorará bastante para que se chegue ao fim da série, pois, agora em julho de 2006, estará saindo o 13º volume de 28. Assim, ainda vou acompanhar o drama das personagens por muito, muito tempo.

Falando da história em linhas gerais: Yuuri Suzuki é a típica garota normal. Seu aniversário de 15 anos se aproxima, sua família (*pai, mãe e duas irmãs amorosas, uma mais nova e outra mais velha*) está comemorando a sua admissão no colegial (**o inferno dos exames**), para a escola que ela queria. Fora isso, ela tem um namorado fofinho e ela acabou de dar o seu primeiro beijo. Tudo seria ótimo para Yuuri se ela não começasse a sofrer "alucinações", vendo mãos saírem de dentro d'água (*copo, banheira, aquário*) tentando agarrá-la.

Para se proteger das situações desagradáveis ela começa a evitar a água até da chuva. Só que acaba aceitando sair com o namorado que já estava impaciente. Vão ao cinema e, quando iam para uma lanchonete, Yuuri é agarrada por duas mãos que a puxam para dentro de uma poça d'água (**sim, isso mesmo**). A menina emerge em uma fonte no meio de uma cidade totalmente estranha. Ela não entende a língua dos habitantes, todos a olham com curiosidade e, para completar, soldados começam a persegui-la.

Quando ia ser capturada, Yuuri esbarra em um lindo rapaz que a agarra, cobre com sua capa e a beija. Os soldados chegam, ele é identificado como Princípe Kail (Kairu) Mursili. O jovem diz que está com uma amante e coloca os homens - que ele identifica como gente da rainha - para correr. Kail pergunta quem é Yuuri, a moça, assustada com o beijo (**beijo de verdade, não igual ao que o namorado "pastel" lhe deu**) e por passar a entender a língua do moço, foge. Abrindo um parênteses aqui: Kaileis um exemplo didático do "Efeito Pocahontas" no universo dos mangás. Quem viu o desenho da Disney em inglês deve lembrar do "Listen with your heart, You will understand". A partir daí, problemas com o idioma não estarão mais na lista dos muitos que a protagonista tem.

Ela acaba sendo capturada pelos homens da Rainha Nakia, que sendo grã-sacerdotisa controla as águas. Os oráculos mostraram a ela que Yuuri era a moça certa para que ela pudesse fazer um terrível feitiço. Seu objetivo? Matar todos os filhos mais velhos de seu marido e garantir o trono para seu próprio filho, o caçula. Explicando: Nakia pode ser a rainha, no caso dos hititas ainda carrega o título vitalício de Tawananna, mas outros príncipes, filhos de outros casamentos legitimos, têm precedência sobre o seu. Nada que não possa ser resolvido, pensa a rainha. Ela engana o rei, diz que os oráculos exigem que a moça seja sacrificada no templo do grande deus Theshub. Seus planos não frustrados por Kail que interrompe a cerimônia dizendo que Yuuri não podia ser oferecida ao deus por não ser mais uma virgem, pois ele inadvertidamente a tinha deflorado. A rainha fica irada, mas não há o que fazer naquele momento.

Kail não parece preocupado com Yuuri em um primeiro momento, apesar de tomá-la oficialmente como concubina, mas em frustrar quaisquer que sejam os planos de sua madrasta. Claro, que os sentimentos pela moça mudam rapidamente, em especial depois que ela não aceita seus avanços e diz "amar outro". Com o tempo, ficamos sabendo de detalhes das intrigas palacianas, por exemplo, apesar de Kail ser o terceiro na linha sucessória, provavelmente receberá a coroa. Seu irmão mais velho, que tem uma esposa e cinco concubinas, não consegue ter filhos, e o segundo irmão é filho de uma esposa de origem inferior. Além de ser o herdeiro em potencial, Kail é um poderoso guerreiro, tanto com arco quanto com a espada, e também um sacerdote. Por isso, ele pode mandar Yuuri de volta, quando a estrela da manhã estiver no céu e as sete fontes cheias, mas nem a moça, nem ele estão certos de que querem isso. Ah, a confluência de fatores só ocorre uma vez por ano, logo, se não aproveitarem a chance, terão que esperar o ano que vem.

Se Kail, apesar da seus defeitos se mostra um sujeito fascinante, Yuuri não fica atrás. No início, ela parece ser chatinha e mete os pés pelas mãos algumas vezes... nada que a maioria das protagonistas adolescentes não façam, só que quando as besteiras são feitas por meninas, muitos adoram crucificá-las por puro preconceito. Com o tempo, ela mostra que é corajosa, justa e generosa, e começa a ficar evidente que ela não foi parar no reino dos Hititas por acaso, pois ela seria de fato o avatar da deusa da guerra Ishtar. Juntos (**talvez não tenha havido nenhum "Efeito Pocahontas" no fim das contas, mas o poder da deusa.**) Isso aliás é interessante, pois Yuuri luta, monta a cavalo (**ela ensina os hititas que cavalos não foram feitos somente para puxar carroças e carruagens!**) e se defende sempre que necessário. Apesar da resistência de alguns, principalmente do soturno e racional conselheiro Ilbani (*ele lembra o Sr. Spock de Jornada nas Estrelas*), ela começa a ser vista como o par ideal do princípe Kail e feita do material necessário para se tornar a próxima Tawananna. Além de Yuuri, o mangá também é cheio de outras mulheres guerreiras e poderosas, aliás boa parte das personagens é bem interessante.

Dentre as personagens do mangá, merece destaque o pobre príncipe Zananza, quarto na linha de sucessão. Acho que não se diz sua idade, mas deve ter entre 19 e 21 ano e é o irmão favorito de Kail. Ficou órfão muito cedo e foi criado pela mãe de Kail, a Rainha Hinti. Como sua mãe era de condição inferior, não pode sonhar com o trono... e nem com o amor. Por que? Ele se apaixona por Yuuri quase à primeira vista, mas o coração da moça já pertence ao irmão. Honrado e responsável, ele termina sendo enfetiçado pela Rainha e quase faz uma tolice. Se redime, óbvio, mas morre heroicamente para salvar Yuuri. E acaba não se casando com a viúva do faraó Tutancamon. Acha que a autora exagerou? Nada disso, há uma carta da Rainha Ankesenamon para o Imperador hitita pedindo que enviasse um dos filhos para se casar com ela, já que ela se sentia ameaçada por... Bem, eu sou daquelas que acredita que o pobre Tutancamon foi assassinado. A Rainha Nakia desejava empurrar Kail nessa furada, mas Zananza literalmente se sacrifica pelo irmão que mais ama. Eu gosto bastante de Zananza. Ler os volumes #7 e #8 foi muito triste. A morte de Zananza, a coragem de Yuuri para tentar desmascarar a rainha, o sofrimento de Kail pensando que o irmão e amada estava mortos... Enfim, muita coisa triste e emocionante ao mesmo tempo. Querem saber? O príncipe hitita que partiu para o Egito, também foi assassinado tão logo colocou os pés no território inimigo. E a pobre rainha, filha do faraó herege Akenaton, terminou sendo obrigada a casar com o velho vizir Ay que se tornou faraó. Em seguida, a moça some dos registros históricos.

Como os hititas, na época enfocada pelo mangá (c. de 1500 a.C.), era uma grande potência, não poderia faltar o confronto com outros povos, em especial os egípcios. Logo, o futuro Ramsés I aparece no mangá (*volume 8*) e se apaixona por Yuuri. Ele é uma personagem bem interessante e o único além de Yuri e Kail que aparece em uma das capas da série. Aliás, ele dá muito problema para Kail e tenta roubar Yuuri dele, até porque eles não são casados "de verdade" ainda. Falando dos Hititas, eles eram considerados lenda até o século XIX, pois, as únicas citações a eles estavam na Bíblia (Povo de Hete, Heteus) e foram necessárias escavações arqueológicas para convencer as pessoas. Eram indo-europeus, são considerados um dos primeiros povos a conseguir usar o ferro, dominaram boa parte da Mesopotâmia e tiveram como centro do seu império a Anatólia, na atual Turquia.

Falando especificamente do mangá, ele foi publicado entre 1995 e 2002 na revista Sho-Comi, a mesma de Fushigi Yuugi, e tem 28 volumes. O sucesso foi imediato, mas nada que não fosse esperado de uma autora com o currículo de Chie Shinohara, tanto que em 2001 ela conquistou novamente (**primeira vez foi em 1987 por Yami no Purple Eyes) o Shogakukan Manga Award. Falando um pouquinho da arte de Shinohara, ela pode parecer bem simples, limpa e até um pouco "fora de moda" já que se aproxima do estilo lembra um pouco Suzue Miuchi de Glass Mask, mas a manga-ká é extremamente competente tanto nas cenas paradas ou românticas como nas cenas de ação e violência. Fora, claro, que ela coloca uma dose salutar de sensualidade e erotismo nas suas obras. Aliás, uma de suas especialidades são os shoujo mangá de terror. Anatolia Story não tem anime, o que é uma infelicidade, já que ver Yuuri e Kail animados seria muito legal, só que seguindo um percurso muito comum foram produzidos vários CDs com partes do mangá, poemas e músicas compostas especialmente. Além disso, outros produtos foram lançados como o art book Fukusei Gengashuu Ishtar (1999). Kail e Yuuri

Considero a obra de Shinohara melhor do que Fuhigi Yuugi de Yuu Watase, por exemplo. Destaque especial para o casal de protagonistas. Yuuri e Kail formam um par perfeito e nenhum dos dois brilha menos que o outro. É um alívio ver que apesar de Yuuri ter que passar o mangá fugindo, sendo seqüestrada, quase sendo violentada, e tentando escapar da morte pelas mãos da rainha Nakia, ela faz muito melhor figura do que Miaka e outras heroínas que temos por aí. Já Kail, que até conhecer Yuuri esperava pela mulher que iria ser a única no seu coração (**ele é um grande namorador, logo estamos falando de concubinato e/ou casamento aqui.**) apesar do caráter perfeitamente contraditório, ganha de longe do namorado "contemporâneo" de Yuuri que é um adolescente bobão, fora isso, consegue fazer frente à vilã com astúcia e coragem. Aliás, acredito que até Yuuri chegar, sua estratégia era se fazer de "morto" para desmontar uma a uma as armações da rainha. Bem, melhor deixar as conjeturas de lado.

Bons sites de Anatolia Story são o do italiano Shoujo Manga Outline, e o Akai Kawa no Jinja, em inglês. Só algo que esqueci: Anatolia Story é o próprio subtítulo do mangá em japonês, já o título "SORA WA AKAI KAWA NO HOTORI" quer dizer algo como "o céu sobre o rio vermelho". O tal "rio vermelho", por causa dos sedimentos de suas margens, e chamado de Halys pelos Hititas, realmente existe, e seu nome atual, em turco, "kirzil irmak" se remete a sua cor. O nome do mangá em inglês acabou sendo "Red River", mas acho que o subtítulo japonês "Anatolia Story" seria bem mais adequado. Falando na VIz, a tradução tem deixado a desejar em alguns pontos e estou preocupada com as informações que devem estar se predendo, só que agora que viciei, já era.

Anatolia Story seria um mangá perfeito para substituir Fushigi Yuugi, pois aproxima bastante em estilo da obra de Yuu Watase. Aliás, ambos podem ser chamados de herdeiros de Ouke no Monshou. Só terminando, digo que vale a pena ler Anatolia Story ou qualquer outro mangá de Chie Shinohara. Uma boa opção é procurar por Ao no Fuuin que ainda não foi licenciado nos EUA. Também é possível baixar alguns dos volumes americanos de Anatolia Story, ou melhor, Red River, neste site. Aproveitem! Como acredito no potencial do mangá, estou divulgando a obra e, para isso, criei uma comunidade no Orkut e um abaixo-assinado online pela publicação da série. A depender da receptividade, irei enviar carta às editoras. Quem sabe, não é? Se você quiser saber mais sobre a série, com riscos de spoilers, clique nas novas seções que foram criadas:

**A AUTORA** **PERSONAGENS** **HITITAS E EGÍPCIOS** **ISHTAR**MANGÁ EM PORTUGUÊS**



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Webmistress: Valéria "Utena-sama" - 25/03/2005