The Legend of Basara


Trezentos anos depois do "armagedon" que ocorreu no século XX, o clima da Terra mudou e o Japão se encontra isolado do resto do mundo. A civilização foi destruída e o país é governado por uma família cruel e sangüinária. SarasaO Rei Supremo dividiu o território entre seus filhos que são simbolizados por cores (Vermelho, Azul, Preto e Branco) que governam com mão de ferro, sempre almejando destruir um ao outro. Enquanto os poderosos lutam entre si, a população vive aterrorizada, mas uma profecia prevê o nascimento de um "messias" que iria libertar o país.

Assim, nossa história começa no pequeno vilarejo de Byakko (lembram dos deuses de Fushigi Yuugi?) no sudoeste do Japão que se tornou um deserto. Lá nascem duas crianças gêmeas, Sarasa e Tatara. Imediatamente, o profeta-médico-professor-sábio cego (**cegueira pode ser signo de sabedoria em muitas culturas.) da vila, Nagi, vaticina que "o escolhido" acabou de nascer: Tatara. Detalhe é que eu duvido que na profecia vinha dizendo o sexo da criança, mas só podia ser o garoto, certo? Pois é, Tatara passa a ser protegido e adulado por toda a vila. Já Sarasa ama profundamente o irmão, mas sendo deixada de lado, sente ciúmes. Tatara tem uma personalidade calma e introspectiva, já Sarasa deseja ser uma guerreira, ou talvez armeira, e é reprimida em seus desejos. Tudo culmina no décimo segundo aniversário dos dois, quando Tatara recebe uma maravilhosa festa de aniversário que simbolizaria sua entrada na vida adulta e a espada sagrada da vila. Sarasa, que é fascinada por espadas, decide tocar o presente do irmão e é esbofeteada pelo pai, que a acusa de haver contamido a espada, pois o toque de uma mulher seria impuro. A menina foge para o deserto e acaba encontrando duas personagens que irão marcar o seu O Rei Vermelhodestino: o Rei Vermelho e o andarilho Ageha.

A menina Sarasa cruza com o Rei Vermelho e sua comitiva sem que Kakuji, sua "ama-seca", consiga evitar. O Rei, um garoto pouco mais velho do que ela, ordena que a matem junto com Kakuji. Daí aparece Ageha que pede piedade para a criança e diz que matá-la traria vergonha para o jovem rei. O Rei Vermelho fere um dos olhos de Ageha, tirando-lhe a visão em troca da vida de Sarasa. A comitiva continua seu caminho. O andarilho reconhece em Sarasa a criança escolhida, mas Kakujî diz que o escolhido é o irmão da menina. Ageha se vai, pouco convencido e decepcionado. Quando Sarasa e Kakuji retornam à aldeia, descobrem que o Rei Vermelho a atacou e que um de seus amigos se sacrificou por Tatara ao se fazer passar por ele. Sarasa se sente um pouco culpada e a partir daí decide "se colocar no seu lugar". Para compensar a tristeza da menina, Nagi, o sábio, decide ensinar-lhe tudo o que sabe, cuidando de sua educação.

Três anos se passam e o Rei Vermelho está ciente de que matou a criança errada. Um exército bem maior do que o anterior retorna à vila, e rapidamente domina os moradores, captura Tatara e corta sua cabeça. O pai dos gêmeos também é morto, sua mãe, capturada. É o fim do sonho de liberdade. Sarasa está com Nagi e Kakuji, mesmo aterrorizada ela decide agir. Corta os cabelos, se veste com as roupas do irmão e desafia o exército inimigo dizendo ser Tatara. Todos, até a noiva do irmão, passam a achar que foi Sarasa quem perdeu a cabeça. O único que consegue perceber a verdade é o avô dos gêmeos que parece compreender que todos estavam enganados ao pensarem que Tatara era a criança escolhida. Depois de conseguir controlar Yato, o cavalo que somente seu irmão montava, ela se enche de confiança e consegue liderar os aldeões sobreviventes e fugir com eles. A vila é destruída. Muitos são os mortos. A espada sagrada é roubada e colocada em uma fortaleza junto com a cabeça de Tatara. Para mostrar que é realmente "o escolhido", ou melhor, que Tatara não morreu, Sarasa deve recuperá-la e liderar o povo. Mas isso é só o primeiro desafio que a menina vai enfrentar.

Além da narrativa empolgante, Basara tem personagens complexas e bem longe do maniqueísmo. Sarasa é a heroína inteligente, determinada, que busca forças noExemplo do uso das cores no mangá.  O de tapa-olho é Ageha. irmão morto para cumprir sua missão. Ela não deseja matar, não quer a guerra, mas este é seu caminho. Já, Shuri, o Rei Vermelho, não é o vilão malvado. Ele deseja, sim, é verdade, afastar todos os que podem ameaçar o seu poder, tem como objetivo eliminar seus concorrentes, sejam eles Tatara ou seus irmãos, mas é leal com seus amigos, acabou com a escravidão em suas terras e tem um profundo interesse pelo progresso do país investindo em pesquisas para a obtenção de água. É um líder determinado e capaz, além de ser também uma criança refém de uma profecia. Antes de nascer foi vaticinado que ele seria a razão da queda de seu pai. Por causa disso, quase foi vendido como escravo (ele tem no corpo a marca da escravidão), seu pai o mandou viver com uma família de parentes e, quando decidiu trazê-lo de volta, terminou lhe dando a parte mais pobre do reino para governar. Detalhe: ele e Sarasa se conhecem por acaso, sem que um saiba da real identidade do outro. O romance dos dois é impossível, mas quando ambos (Shuri percebe primeiro) descobrem suas verdadeiras identidades, decidem continuar. São amantes às escondidas e inimigos no campo de batalha. Ambos sabem que no final de tudo só pode haver tragédia.

Além do casal principal, outras personagens excelentes recheiam a história. Ageha é um deles. Sábio, distante, misterioso. Ele parece espectador da história. Volta e meia interfere, como quando salvou Sarasa, ou depois, quando salva Nagi durante o ataque a vila. Ele acredita em profecias e está previsto que salvaria "a mulher de sua vida". ***Fica muito decepcionado quando descobre que Nagi é homem.*** Ageha também tem um segredo e uma identidade secreta: para poder se locomover pelo reino sem ser incomodado, ele é uma bailarina famosa de nome Kicho que é a estrela da maior companhia mambenbe da época. Outra figura marcante em Basara é Shido. Primo do Rei Vermelho (foi sua família que o criou), leal ao seu senhor, amigo de todas as horas e gentil com todos no dia-a-dia. No campo de batalha, entretanto, é sangüinário e cruel. O maior medo de sua noiva - que é absolutamente reprimida pelas convenções sociais - é que ele morra em combate. Shido e Ageha estão também unidos pelo passado comum, pois o andarilho foi escravo do comandante na infância, tendo sofrido os piores abusos (inclusive de natureza sexual).

Um amor condenado.

Basara foi um dos shoujo mangás que mais me atraiu nos últimos tempos, sendo um misto de ficção científica e fantasia, certamente seria uma história "diferente" se aparecesse em nossas bancas, surpreendendo aqueles que mantém sua idéia de que shoujo mangá seria romance açucarado e/ou descerebrado. Apesar de poder ser considerado um mangá antigo, foi publicado na revista Betsu-comi (Bessatsu Shoujo Comic), a mesma de Hot Gimmick, entre setembro de 1990 e junho de 1996, é obrigatório. A série foi compilada em 27 volumes, sendo os dois últimos gaidens, e além do Japão e muitos países da Ásia, está sendo publicado nos EUA, pela Viz (já são três títulos da autora saindo pela editora), e na França, pela Kana, a mesma que lançou a Rosa de Versalhes por lá. A autora da série, Yumi Tamura, tem uma obra bem variada, tendo inicado sua carreira em 1983. Assim como acontece com Hagio Moto, suas obras (mais conhecidas no Ocidente) misturam fantasia (ela é fã de RPG) e ficção científica. Basara garantiu à autora o 38º prêmio anual do melhor shoujo mangá da editora Shogakukan em 1993. O que poderia desagradar aos chatos no Brasil (mas esses criticariam qualquer coisa, principalmente em um shoujo) é a arte da autora que é estranha à primeira vista, estando longe do bonitinho convencional. Dentro do quesito arte, aliás, eu destacaria o uso das cores, com certeza o ponto alto dos trabalhos de Yumi Tamura. Fora isso, existem claras pitadas shounen-ai na história, mesmo que a coisa não se encaminhe para nada mais explicíto.

O sucesso do mangá de Basara impulsionou a produção de uma série animada. A primeira temporada foi exibida entre 02 de junho e 28 de setembro de 1998, cobrindo os primeiros #5 volumes da trama. Como sempre pode acontecer, o anime, feito pela KSS, não conseguiu o sucesso esperado e foi cacelado no 13º episódio. A série ficou em aberto e algumas personagens importantes mal aparecem. Enfim, talvez a cois apossa ser retomada no futuro, mas é preciso dizer que o mangá é muito superior à série animada, que parece ter uma animação abaixo da média de sua época. Arte do anime. De excelente fica a trilha sonora heavy metal que é muito boa.

Quem lê minhas resenhas e colunas sabe que as questões tratadas na série, como discussões dos papéis de gênero, me agradam em cheio. De fato, eu simpatizo muito com a heroína e seu drama, ela é forte e humana ao mesmo tempo, vulnerável e destemida na medida certa. Mesmo o romance entre ela e o Rei Vermelho evolui de uma forma bem legal. Também não acredito, como muitos fãs da série, que Sarasa simplesmente vire Tatara, para mim, a moça, é a criança escolhida e somente o preconceito a deixou em segundo plano. A coragem e a ousadia são dela, não de um irmão que no pouco que apareceu era muito pouco competente como guerreiro. Aliás, a autora pega certeiro ao retratar as discriminações sofridas pela menina e de como somos obrigados a aceitar papéis de gênero "masculinos" e "femininos" sem que necessariamente isso implique em nossa felicidade. Bom que Sarasa se libertou disso, por isso, ler Basara é acompanhar seu processo de crescimento e amadurecimento.

Para quem quer ler mais sobre a série, sugiro visitar o site francês Basara Spirit e o americano, Midori a Basara site. Ambos são os mais informativos que encontrei sobre a série de mangá e a animada. Outra seção interessante sobre Basara no site Aestheticism, especializado em yaoi, lá você encontra um artigo sobre Ageha e outro sobre Asagi, o Rei Azul. Ah, meu mousepad é de Basara, é o primeiro de mangá que eu compro. ^_^



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Webmistress: Valéria "Utena-sama" - 29/09/2004


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