CLÁSSICOS DO SHOUJO



Talvez, o melhor título para esta seção fosse os animes que você não viu, os mangás que você não leu e que provavelmente jamais irão aparecer aqui, no Brasil. Mas não devo ser pessimista, pois tudo é possível. Ouke no MonshouAfinal, embora no quesito anime continuemos muito mal, muita gente nunca imaginou ser possível a publicação de tantos mangás regularmente em nosso país, e isso vem acontecendo já há alguns anos. Só que, por mais que se avance, não poderemos jamais compensar a terrível lacuna que nos privou de séries maravilhosas.

É inegável que tivemos uma década perdida entre meados dos anos 80 e a chegada de Cavaleiros do Zodíaco, em 1994. Nesse mesmo período, e mesmo antes, países como França, Itália, Espanha, Alemanha e outros tinham acesso à obras, hoje consideradas clássicas, que boa parte do público brasileiro nunca ouviu falar. Quem em nosso país ouviu falar em Attack Nº 1 ou Glass Mask? Para ilustrar que o problema não foi só com o gênero shoujo, basta falar em outras obras magníficas baseadas em mangás shounen como Touch e Ashita no Joe para perceber que pelo menos nesse terreno a coisa é bem democrática. Principalmente se o assunto forem séries que giram em torno do mundo dos esportes. Aqui no Barasil, mesmo entre os supostos especialistas, cuja memória, não raro só é capaz de recuar até Akira, estas obras são ilustres desconhecidas.

Em nosso país, a ignorância em relação aos clássicos é imensa, se estes são shoujo então, a coisa se torna ainda pior, porque a vinda de Sailor Moon não abriu caminho para a chegada de uma quantidade de shoujos igual a de shonens. E não acredito que Sailor Moon não tenha feito sucesso, foi o preconceito de que "menina não liga muito para essas coisas e cresce rápido demais" que ajudou a determinar a seleção desigual. Por isso, nessa seção, quero falar um pouquinho da história do shoujo anime e mangá, e, em especial, algumas autoras e obras que considero fundamentais.

A primeira revista shoujo em moldes parecidos com os atuais, a Monthly Ribon, foi criada nos anos 50, nesse primeiro momento, boa parte dos escritores e desenhistas de shoujo nesses primeiros tempos eram homens. Nada estranho, se levarmos em conta que a entrada maciça das mulheres japonesas no mercado de trabalho - mesmo que de forma provisória, isto é, até que se casassem - só começa a se acelerar nos anos 70. Havia revistas voltadas para pré-adolescentes e adolescentes, desde o fim do século XIX, que traziam inclusive quadrinhos como a Shoujo Kurabu (Club) mas, de acordo maioria dos especialistas em shoujo, Osamu Tezuka é considerado o pai do mangá atual, independente do gênero. Antes de Tezuka,Asaki Yumemishi com a as histórias eram episódicas, curtas, mas parecidas com as tirinhas que saem nos jornais e sem, a narrativa cinematográfica que foi a grande contribuição do mestre ao mangá em geral. Além disso, eram mais comuns nas páginas das primeiras revistas femininas os romances ilustrados - que continuam saindo no Japão ainda hoje - onde já se percebia a estética shoujo, esta, sim, bem anterior ao boom dos mangás.

Voltando à Tezuka, o seu conhecidíssimo A Princesa e o Cavaleiro (Ribon no Kishi) foi consagrado no inconsciente coletivo como o primeiro shoujo mangá, enquanto Mahou Tsukai Sally, criado por Mitsuteru Yokoyama tendo por base sua série publicada na Ribon, foi o primeiro shoujo anime. Engraçado é saber que o gênero só chegou as TVs graças ao sucesso de uma série americana muito conhecida aqui no Brasil: A Feiticeira (Bewitched). Este primeiro shoujo anime durou de 1966 até 1968 contando com 109 episódios, e lançou as bases do mahou shoujo, gênero que nunca sai de moda. Engraçado é que no "Grande Livro dos Mangás", recentemente publicado no Brasil, o autor diga que a ascensão dos mahou shoujo foi somente nos anos 90. Pode ser que para alguns fãs bitolados de Sailor Moon isso possa até estar valendo, mas só é mostra de um grande desconhecimento da história dos shoujo mangá.

Ainda nos anos 60 surge outra das mais famosas revistas shoujo até hoje, a Margaret, e nas suas páginas, impulsionado pela vitória da seleção japonesa feminina de vôlei nas Olimpíadas de Tóquio (1964), surge o primeiro mangá shoujo de esportes, Attack Nº 1 de autoria Chikako Uraga e Kyoko Yamashita. Este mangá, tem ainda a estética dos anos 50 e 60, não trabalhando com os clichês que serão regra posteriormente, assim, a maioria das personagens japonesas têm cabelos escuros e a protagonista não se enquadra no perfil "garota aparemente comum que precisa de um treinador visonário para perceber o seu grande talento para os esportes". De qualquer forma, esse novo gênero de mangá shoujo foi um sucesso que abriu caminho para vários outros.

Mesmo se levarmos em Orpheus no Mado conta que a grande virada do shoujo se dá nos anos 70, não podemos esquecer da importância das autoras pioneiras dos anos 50 e 60, como Watanabe Masako, Maki Miyako, Hideko Mizuno (autora de Honey Honey exibida aqui nos anos 80), Satonaka Machiko (quem debutou aos 16 anos em 1964) peças fundamentais para lançar as bases do gênero e grandes desbravadoras. Isso porque entraram no mercado editorial quando esse era quase absolutamente masculino, se afirmaram pela sua arte, deixaram o exemplo para outras mulheres. E essas vieram já na segunda metade dos anos 60 e ampliaram o campo de visão das histórias trazendo "um olhar feminino sobre o cotidiano feminino" (*a frase pode ser redundante, mas a idéia é essa mesmo*) e introduzindo temas jamais vistos no universo do mangá masculino. A grande revolução do quadrinho feminino entretanto foi na narrativa, pois, sem abrir mão do estilo cinematográfico e de recursos utilizados pelo quadrinho masculino, o shoujo rompe com a linearidade dos quadros, desenvolvendo a ação sem necessariamente ser escravizado por ela. Nesse sentido vale a pena falar que boa das pessoas que não tem o costume de ler shoujo mangá mas está muito acostumado com o shonen e/ou o quadrinho ocidental acaba se sentindo perdido, como se faltasse algo. Daí que muitos sem ter a sensibilidade de reconhecer a diferença, acusam as quadrinistas de shoujo mangá de serem não-acadêmicas - Afinal, há algum problema nisso? - ou de péssimas desenhitas ou de incompetentes como contadoras de histórias. Ora, tanto espaço vazio por quê? E essas flores aqui e ali, só são para enfeitar? E não percebem, claro que cada flor tem um significado que se remete ao estado de espírito da personagem. Por que os closes em rostos e olhos? Ah, é porque elas não sabem desenhar cenários e por aí vai... Interessante é que mesmo que alguns não entendam (*inclusive as nossas editoras*), o grande público tem acolhido o shoujo mangá no Ocidente e dado acolhida tanto à arte quanto às mensagens intimistas presentes em algumas histórias.

Obviamente, existem desenhistas shoujo que seguem os canônes dos quadrinhos masculinos em relação aos enquadramentos e forma de conduzir a ação mas estas não são a regra, são a exceção. Outras, From Eroica With Lovemesclam de forma criativa o "melhor de dois mundos" e tem se saído muito bem. Talvez um marco nessa nova forma de narrativa tenha sido o mangá Fire! de autoria de Mizuno Hideko, discípula de Osamu tezuka, e que foi publicado entre os anos de 1969 e 1971 na revista Seventeen. Fire! foi um dos primeiros shoujos a atrairem uma audiência masculina, sendo direcionado a um público mais velho, coisa rara até a "revolução dos anos 70. Esta série aborda de forma realista a trajetória de um jovem americano (*Sim, o protagonista é um rapaz*)injustamente internado em um reformatório, lá ele conhece um jovem rebelde e mais velho que o introduz no mundo da contra-cultura, com direito à sexo (A primeira cena de sexo em um mangá shoujo aparece em Fire!), drogas e rock-and-roll. A história contada com maestria e recheada de temas contemporâneos, drama e tragédia, foi um sucesso e mostrou o amadurecimento das histórias shoujo.

Mas, como já anunciamos, foi nos anos 70 que as mulheres entraram maciçamente no mercado de mangá, trazendo novos temas e enfoques para o gênero. Se antes, as histórias eram direcionadas para as pré-adolescentes, agora, temáticas mais maduras são introduzidas mesmo que as revistas shoujo adultas só fossem criadas nos anos 80. 1972 representa um marco com a publicação na Margaret de A Rosa de Versalhes de autoria de Ryoko Ikeda. Primeiro shoujo com temática histórica, só foi publicado por insistência da autora e contra a vontade dos editores, acabou sendo sucesso absoluto. Ikeda fazia parte de um grupo de autoras conhecido como "Nijuuyo-nen Gumi" que quer dizer "A geração de 24" porque praticamente todas as manga-kas do grupo nasceram no ano de 1949, ou melhor dizendo, ano 24 da Era Shôwa. Dentro desse grupo encontramos autoras como Hagio Moto e Takemiya Keiko que inventaram o chamado shonen-ai que trouxe definitivamente a questão da androginia, do homossexualismo para dentro do shoujo mangá. O grupo de 24 é o mais lembrado e cultuado dentro do shoujo clássico, pois inovou tremendamente em suas histórias e temáticas. Algumas dessas autoras hoje estão aposentadas, algumas são professoras em faculdades de mangá (Sim, isso existe no Japão), outras produzem para as lady's comics (josei), revistas shoujo adultas, como a You, mas a maioria é quase absolutamente desconhecida em nosso país.

Ainda nos anos 70, consolidou-se o shoujo mangá de esportes com Ace wo Nerae, série publicada na Margaret a partir de 1972. Dessa vez o esporte era o tênisGarasu no Kamen e a série fez tanto sucesso que influenciou esteticamente Ryoko Ikeda (Isso fica muito visível em Oniisama E...), além de ter duas séries animadas, OVAs e continuação do mangá. Apesar de fundamental e de ter passado em boa parte da Europa é praticamente desconhecida no Brasil. Outro que merece ser citado isoladamente, mas dentro do Boom criativo de 72, é Wada Shinji, talvez o único expoente masculino do shoujo nos anos 70, que, publicando na Hana to Yume, outra importante revista, trouxe o gênero policial para o universo do shoujo mangá com Sukeban Deka, série extremamente violenta e que muitos brasileiros, acostumados com produtos Nakayoshi, jamais seriam capazes de identificar como shoujo, apesar das pistas estéticas estarem lá. Fechando esse time de talentos isolados temos em 1976 a estréia da revista Princess da série Eroika Yori Ai wo Komete (From Eroika with Love) de Yasuko Aoike que tomando a Guerra Fria e o mundo da espionagem como pano de fundo criou um ladrão internacional cheio de charme, absolutamente fashion e homossexual. A série aliás é publicada até hoje, sempre antenada com as mudanças ocorridas na geopolítica mundial.

Outro grupo de autoras que conseguiu grande destaque nos anos 70, foi o chamado grupo de Hokkaido, chamado assim porque todas as manga-kas haviam nascido nessa região, mudando-se depois para Tóquio. Estas autoras optaram por temas mais tradicionais, com mangás em geral marcados pelo romantismo e idealização, mas se mostraram grandes desenhistas e contadoras de histórias. Yumiko Igarashi, de Candy Candy, e Waki Yamato, de Haikara-san ga Tooru, fazem parte desse grupo de autoras cultuadas no Japão e fora dele.

A lista de autoras marcantes dos anos 70 não poderia parar por aqui, então, achei por bem, falar de algumas obras em especial. Espero que goste!