Hagio Moto, uma das maiores manga-kas japonesas, provou com
They Were Eleven (Desculpe usar o título em língua inglesa mas é que estou mais acostumado com ele) que
shoujo e ficção científica podem combinar maravilhosamente bem. Se hoje, é comum ver muita gente afirmando que
a revista Asuka (e sua irmã Asuka Deluxe)
não seria uma revista shoujo mas, sim, mista porque teria como forte histórias de ficção científica (Cowboy Bebop), ação e fantasia (X da CLAMP), é porque
as pessoas não têm noção de que os quadrinhos femininos não se limitam aos romances colegiais e ao tradicional mahou shoujo. Já nos anos 70, mais precisamenre em
1975, Hagio Moto publicava na revista Bessatsu Shoujo uma história que se tornaria um clássico da ficção científica japonesa e arrebataria o Shogakukan Award.
They Were Eleven é uma história que tem na tensão psicológica um dos seus traços mais marcantes, ao mesmo tempo que
discute as questões relativas aos papéis de gênero e o peso das convenções sobre os indíviduos.
A história, que tem somente um volume, começa resumindo o futuro da humanidade:
depois da descoberta da propulsão de dobra e do fenômeno da anti-gravidade,
os terráqueos se espalharam pela Galáxia e fundaram colônias em cinqüenta e um planetas. Tudo isso em dois séculos. Com o tempo a harmonia entre a Terra
e as suas colônias deixa de existir mas a descoberta de ruínas alienígenas em um planeta fazem com que a as desavenças sejam
superadas e se forme o Governo Pan-Terrano (o termo é esse mesmo).
Não podendo negar a existência e
força dos vizinhos que encontrou, a
Terra entra em uma aliança com três superpotências estelares,
Lota, Segul, Saba e outras
espécies menores e forma a Aliança Interestelar. Com esse novo acordo os Terranos continuam sua expansão e nos próximos
quatro séculos competem
com os Sabans pela supremacia. Ao fim desse período, os terranos se tornam a espécie mais populosa, seguida pelos Sabans,
Seguls e Lotas. Os casamentos interespécies são comuns,
pois todos são humanóides, exceto com os Lotas que se mantém a margem dessas trocas devido à sua religião.
E chegamos então ao início da história. Dia de exame final para o acesso na Cosmo Academy, os aprovados
nos testes preliminares, serão alocados em grupos de dez e submetidos ao último desafio. Só que um dos grupos tem 11
componentes e, não 10, como deveria ser. A partir daí, um desconfia do outro e coisas estranhas acontecem. Não há dúvida
que o 11º tripulante tem como objetivo fazer com que os outros dez fracassem. Mas como conseguir neutralizá-lo?
They Were Eleven tem duas persoangens principais: Tada (Tadatos Lane), um órfão que tem poderes telepáticos, e Froll (Frolbericheri Frol),
um andrógino de beleza estonteante. Ambos são as principais vítimas da suspeita dos demais. Os poderes de Tada (**que não é o único
capaz de fazer coisas incomuns**) fazem com que todos desconfiem dele. Já Froll por causa de seu comportamento e aparência (**à princípio
os outros o tomam por uma mulher**) acaba atraindo atenção "negativa" por assim dizer.
Hagio Moto usa Froll para discutir questões
as convenções entre masculino e feminino. Froll vem de um planeta onde todas as crianças nascem sem sexo definido. Até a puberdade,
tem os mesmo privilégios e crescem livres, mas na adolescência se dá a intervenção: todas as famílias só desejam um filho homem,
os demais serão mulheres. Admite-se também a poligamia e os homens não trabalham, deixando toda a carga para suas esposas. Froll é
o caçula da família, e teve tempo para ver como seu irmão e irmãs mais velhas foram tratados.
Não tem porque desejar ser mulher, mas por
tradição, não tem escolha. O máximo que consegue é fazer com que seu pai o deixe tentar a prova da cademia. Ser falhar, seu destino está traçado
e se tornará uma das esposas de um velho nobre de sua terra. Mas mesmo Froll desejando ser homem e ela não tenha percebido,
seu corpo já optou, sem necessidade de nenhuma intervenção indutora. Para completar, Froll e Tada se apaixonam.
As outras personagens da história não conseguem ter tanta relevância quanto a dupla mas também não fazem feio. Alguns vêm dos mesmos planetas,
outros são os primeiros de sua raça a conseguirem chegar tão longe no processo de admissão. Há um princípe cheio de orgulho, aristocratas
que acreditam na superioridade de seu sangue ou religião, alguns que qerem ser cientistas, e um interessante hermafrodita com aparência reptiliana.
Knu (Vidmenir Knume) é a voz da razão do grupo quando as coisas começam a ficar feias. Ele vem de um planeta parecido com o de Froll, só que seu povo não induz seua habitantes
a se tornarem homens ou mulheres. A coisa acontece naturalmente na adolescência, mas alguns permanecem reptilianos e sem sexo definido. Azar?
Talvez, em troca vivem muito mais do que os outros.
A ambientação do mangá de Hagio Moto é claustrofóbica e angustiante. O começo, mostrando as cápsulas individuais onde os
futuros cadetes ficam confinados para o exame já diz tudo.
A autora é sempre muito competente na definição do tom de suas histórias mesmo
que não deixe o leitor esperar pelo óbvio em termos de roteiro.Em 1986, They Were Eleven
virou filme e manteve basicamente a mesma estrutura do mangá. Aliás,
como só tem um volume, nada se perdeu. A mudança considerável fica por conta do character design que tornou Froll "uma moça"
lindíssima e deu a Tada traços bem mais andróginos.
Não vou me prolongar falando da autora, porque já há bastante informação da autora e sua obra na seção dedicada ao Coração de Thomas.
De qualquer forma, vale lembrar que o que temos de Hagio Moto publicado no Ocidente são suas histórias curtas de ficção científica. A VIZ
teve o mérito de perceber o potencial da autora e escalar Matt Thorn como tradutor, fora isso ainda lançou o filme. Infelizmente,
parece que a editora não tem mais os direitos da obra e ela não pode ser republicada em formato mangá. Minha edição de They Were
Eleven, por exemplo, é em formato americano, espelhado e partido em quatro revistas. Já procurei no E-Bay, lugar onde
se pode encontrar as edições já esgotadas, mas não encontrei ainda o mangá em formato Graphic Novel e devo comprar a edição japonesa mesmo. Aliás,
é por isso que não tenho imagens melhores. Minha esperança é que alguma editora olhe para Hagio Moto e perceba o que está perdendo. É muito
injusto que seus trabalhos sejam quase restritos ao público japonês.