Hot Gimmick



Hot Gimmick é um mangá publicado na revista Bessatsu Shoujo Comic, ou Betsu-comi, como também é conhecida, da editora Shogakukan, desde dezembro de 2000. Sua autora, Aihara Miki, é especialista A protagonista em apurosem mangás centrados em heroínas em situações difíceis e com o coração dividido entre dois ou mais pretendentes. Tão logo Hot Gimmick começou a ser publicado, seu sucesso foi imediato, seja no Japão, ou entre @s fãs de mangá na internet.

Aihara começa apresentando a protagonista e seu mundo. Hatsumi Narita tem 16 anos, é muito tímida e tem uma auto-estima bem baixa. Sua família é grande para os padrões japoneses (*2 irmãos e 1 irmã*), e mora desde a infância em um conjunto habitacional pertencente à empresa na qual seu pai trabalha. Eles são pobres e sua mãe trabalha em um emprego de meio expediente, enquanto Shinogu, seu irmão mais velho, faz bicos para pagar suas despesas na faculdade de Direito. A vida de Hatsumi sempre foi de restrições e humilhações, pois o conjunto onde mora é organizado hierarquicamente, e e todos devem respeito e obediência à Sra. Tachibana, esposa de um alto funcionário (*talvez um dos diretores da empresa*), que despreza e tiraniza todos os que considera inferiores. A protagonista de Hot Gimmick entre eles.

Devidamente apresentada, o dia de Hatsumi começa como outro qualquer: a irmã mais nova escapa das suas responsabilidades e mais uma vez ela é obrigada a levar o lixo; ela encontra com seu amigo otaku Subaru (*Ele é hiper-fã de Gundam*); o rapaz comete mais "uma gafe" (*está remexendo o lixo em busca da sua coleção de figurinhas de anime que sua irmã mais velha jogou fora de propósito*) e a Sra. Tachibana os repreende e ridiculariza na frente de todos. Enfim, o dia poderia ser melhor, mas também poderia ser bem pior... À caminho da escola, Hatsumi vê sua irmã, Akane, sentada no meio fio chorando e dizendo se sentir mal. Ela leva a menina de volta para casa e recebe a notícia: Akane, de 14 anos, acha que está grávida! Ela deixou de usar a camisinha algumas vezes O garoto mimado e possessivoe nem sabe quem pode ser o pai da criança. A menina pede que Hatsumi a ajude e não conte nada para ninguém, principalmente da família. Não é à toa, já que depois descobrimos o quanto o pai das meninas é conservador. Akane suplica que a irmã vá até a farmácia comprar um teste de gravidez... Hatsumi resiste, mas a lealdade à irmã fala mais alto, ela vence a timidez, se fantasia de gal e sai.

Depois de alguns constrangimentos na farmácia, Hatsumi volta para casa com a certeza do dever cumprido. Tudo estaria resolvido se ela não esbarrasse com Ryoki, filho da Sra. Tachibana, e seu antigo algoz na infância (**o garoto costumava maltratá-la e bater nela quando crianças.). Depois do encontrão, o teste de gravidez cai no chão e o rapaz o apanha. Ele pensa que teste é para Hatsumi e decide chantageá-la. Imagina se minha mãe ficar sabendo? A moral do condomínio não poderia suportar esse tipo de escândalo. Hatsumi rapidamente tenta escapar e acaba dizendo que o teste é para a irmã... A coisa piora, afinal, Akane nem está no Ensino Médio ainda!!! Ryoki não titubeia, ou ela faz o que ele deseja, ou todos, e principalmente a mãe dele ficariam sabendo. E o que ele quer? Hatsumi como escrava!

A partir daí, a vida de Hatsumi vira um inferno, pois Ryoki a persegue e deseja usá-la como "treino". Sim, no início ele vê Hatsumi como um brinquedo sexual, só que para a sorte dela, e melhor andamento da história, ele não sabe como brincar! Para salvar Hatsumi a autora providencia Azusa, antigo amigo de infância e grande amor da menina. O rapaz havia se mudado alguns anos atrás mas está de volta para alívio da heroína. Ele a defende de Ryoki, a salva de ser violentada, mas ela não pode contar a verdade para ele (*poder pode, mas ela acha que, não*), já que prometeu à Akane. E o rapaz não consegue entender porque ela tem que obedecer o filho da Sra. Tachibana. Há também Shinogu, seu irmão mais velho, que faz de tudo para protegê-la e a alerta para ficar longe, não de Ryoki, mas de Asuza! Se contasse o terrível Hatsumi e seus três amores: Asuza, Shinogu e Ryokisegredo (*Shinogu tem pelo menos dois, um deles envolve Azusa*) eu destruiria a graça da leitura de muita gente, mas, talvez, dê alguns spoilers depois. O fato é que o perigo ronda Hatsumi por todos os lados e posso dizer que amigos e inimigos podem não ser aqueles que identificamos logo de cara.

Hot Gimmick não é meu tipo favorito de mangá, assim como Hatsumi não é o tipo de protagonista com quem eu simpatize. A graça da história está na forma como a autora nos enreda com sua narrativa e nos faz participar dos sentimentos das personagens. Hatsumi parece submissa e apagada, na verdade, representa o ideal não somente de "mulher" japonesa sempre disponível mas, sim, o indivíduo que se sacrifica pelo bem estar do grupo. É pela família, para que eles não sejam despejados ou maltratados, que ela sofre as humilhações. Akane pode dar nos nervos com seu jeito aparentemente insensível, mas é muito próxima de boa parte das adolescentes que não conseguem medir as conseqüências dos seus atos. Eu cada vez mais a considero mais parecida com algumas das minhas alunas, por exemplo. Ryoki é sem dúvida nenhuma um canalha, mas é também o "garoto mimado" sem freios, adulado pelos familiares e vizinhos. Pode tanto se redimir (*e eu acredito em redenção*) como se tornar um marginal, como tantos inconseqüentes que a gente conhece das páginas de jornal. Interessante é que a autora vai desde o início mostrando que Hatsumi talvez possa ajudá-lo a mudar e ele possa se tornar um ser humano "realmente humano" aos poucos. ^_^ Outra figura que sempre torna as cenas mais interessantes é o otaku Subaru, amigo ao mesmo tempo de Hatsumi e Ryoki, que é muito mais do que o "comic relief" da história.

Além de ser uma boa contadora de história e "mãe" de personagens, Ainda há esperança para Ryokia autora tem uma arte interessante. Sem recorrer ao SD, ela faz expressões faciais realmente engraçadas. Fora isso, ela realmente cria bishonens lindos, é difícil saber quem é mais fofo se Asuza, Shinogu ou Ryoki, mesmo Subaru tam lá seus atrativos. Outro ponto é que por mais que as idas-e-vindas das personagens e, principalmente, o papo de escrava seja um tanto over, a autora é muito feliz ao pintar os dramas reais de muitas adolescentes tanto do Japão quanto de qualquer outro lugar do mundo: falta de diálogo em família; um pai hipócrita e repressor; a pobreza; a diferença de tratamento dentro do círculo familiar; a gravidez na adolescência; o uso ou não uso da camisinha; a pressão que as mulheres sofrem para se sacrificar pelos outros e que as faz suportar até a violência.

Como falei em violência, a minha vontade de dar uma olhada em Hot Gimmick veio exatamente depois de ler um artigo americano (*que eu chamaria de anti-shoujo*) intitulado "Shoujo Dangers - She was asking for it" que dizia que shoujos para públicos mais velhos como Hana Yori Dango (*esqueceram de pesquisar para ver que a Margaret é revista que tem como público alvo meninas no início da adolescência*) e, principalmente, Hot Gimmick fazem apologia à violência contra às mulheres e à dominação masculina, pois glorificariam o estupro como forma de amor. Enfim, quem lê shoujo mangá e, em especial, quem leu estes mangás sabe que tudo isso não passa de difamação e etnocentrismo, isto é, "nossa" cultura Ocidental é a perfeita igualitáriaEle pode ser gentil e os mangás femininos dariam péssimos exemplos para as nossas meninas... Sei, sei, quem cresceu assistindo novela, seriado americano, filme americano e lendo Sabrina, Júlias e romances de Sidney Sheldon que o diga. Lembram da chatinha da Donna de Barrados no Baile que aceitava ser espancada por um namorado "estressado" porque ela não queria transar com ele e que só se livrou do encosto depois de muitos episódios para no fim terminar "dando" sua virgindade de presente para o David, antigo amor desde quase o início da série? Ou então da moda "romântica" de comprar e vender mulheres em filmes americanos dos anos 80 como Uma Linda Mulher ou Proposta Indecente. Mas como eram o Richard Gere e o Robert Redford e não bonequinhos de papel feitas no Japão, não tem problema. Enfim, Hot Gimmick não é sereno nem politicamente correto, mas está acima da média de muitas histórias que vemos por aí.

Essa preocupação das americanas se dá exatamente porque a VIZ comprou o mangá e já lançou até o volume #6. Como bem sabemos, ao contrário do que acontece no Brasil, as editoras americanas estão sempre atentas aos shoujos de sucesso e não consideram esse material como "indigno" de ser publicado. O licenciamento, aliás, fez com que os fãs de Hot Gimmick não-americanos ficassem tristes já que não poderíamos mais ter acesso à série. Bem, não sei qual será o futuro da tradução, mas o pessoal do Vera-Vincent continua disponibilizando os últimos capítulos traduzidos em seu site. Para o início do mangá, só mesmo o Mirc ou os mecanismos de busca Kazaa, Winmx ou o E-Mule.

Agora, independente de qualquer coisa, não deixe de dar uma olhadinha nesse mangá cheio de personagens interessantes e que consegue ser dramático, engraçado, romântico e mesmo triste prendendo a gente do início até o fim. Como vi comparações entre Hot Gimmick e Hana Yori Dango na rede, decidi fazer a minha também. Se você não se importa com esse tipo de coisa, dê uma olhada aqui. Só para concluir, o mangá terminou agora em julho (2005) e deve contar com 11 volumes. Mas não tendo gostado do final, e comento isso lá na comparação com Hanadan, é impossível não querer ler o final. ^_^



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Webmistress: Valéria "Utena-sama" - 27/09/2004


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