Utena: Diversas Faces de uma História
Diferenças entre Mangá, Movie e Série de Televisão
( Pode conter MUITOS spoilers. ) |
- MANGÁ:
A história começa antes da ida de Utena para a Academia Ohtori e é mostrada a sua tutora,
sua tia Yurika. Também, o encontro com Dios é diferente do que ocorre no anime.
No mangá, Utena é inicialmente loira e usa um uniforme entre rosa e vermelho, somente em meados do volume #3 é que seus cabelos se tornam cor de rosa, sem maiores explicações, e ela recebe, após ser derrotada por Touga em duelo, o uniforme negro.
O autor do presente é o próprio Akio, embora ele não assine o cartão.
O mangá tem uma história bem mais curta e
menos complexa do que o anime, sendo inclusive bem convencional. Algumas personagens não
se fazem presentes, como Shiori, Nanami e
suas três amigas, Tsuabuki, o príncipe das cebolas, etc.
O incidente com o Curry, o ciclo da Rosa Negra e a participação de Ruka não fazem
parte da trama principal, são side stories que vem ao fim dos volumes #2 e #5 do mangá.
No mangá, Juri não é lésbica e é apaixonada por Touga,
sendo o ciúme uma das causas principais de seu duelo com Utena. Na side story de Ruka, vemos que
que ele e Juri eram apaixonados mas o rapaz estava mais interessado em torná-la uma grande espadachim,
e exercer seus direitos como "noivo da rosa". Touga visivelmente tinha inveja dele (melhor espadachim, mais
assediado pelas mulheres) e quando o rapaz retorna a academia Ohtori tenta jogar Juri e Ruka um contra o
outro usando Utena.
Touga também é muito diferente do grande canalha apresentado no anime.
Mesmo guardando um pouco do arzinho cafajeste da tv, no mangá ele ama e
protege sinceramente Utena, se comportando muito mais como um “príncipe” do
que como um sujeito que quer o poder a qualquer preço.
Miki, no mangá, é apaixonado por Utena e, não, por Anthy.
Já seu relacionamento com a irmã é quase tão doentio quanto no anime.
No mangá Dios e Akio são pessoas distintas, componentes de uma mesma entidade,
um mesmo deus com duas naturezas e personalidades separadas, uma má e, outra, boa,
harmonizadas em um só ser. A desarmonia gera a separação e, o fim do mangá, Utena se
torna Dios que se une novamente a Akio, que parece se redimir no final.
Anthy se torna como Utena (roupa e comportamento) no fim da série de mangá e parece sinceramente
apaixonada por ela. No final do mangá, somente ela, Touga (igualmente redimido)
e ChuChu não esquecem de Utena.
Considero a ausência de Nanami e a transformações na personalidade de Juri
as maiores defasagens do mangá em relação ao anime, até porque, eram duas das personagens
mais complexas da história. No entanto, isso não deprecia o mangá que é ótimo e merece ser lido,
seja pelo roteiro, seja pela arte.
- ANIME:

A série já começa na academia Ohtori e pouco se fala do passado de Utena. Aliás, ela parece já estudar na academia há muito tempo.
Existe um forte laço de amizade entre Saionji e Touga, o que não fica explícito no mangá, onde Saionji é mais uma personagem usada para dar humor à série.
Nanami, que só aparece em uma foto no mangá, é uma personagem fundamental, perseguindo as supostas namoradas do irmão e infernizando Anthy e Utena. No anime é uma personagem decisiva e sua paixão extremada e quase incestuosa por Touga a fonte de excelentes episódios.
No anime todas as relações entre irmãs e irmãos sugerem um quê de incesto, seja Akio-Anthy, Touga-Nanami, ou Miki-Kozue. As inserções das meninas sombra - elas não aparecem no mangá, que parecem um coro grego, aumenta a impressão de se estar assistindo uma tragédia clássica em alguns momentos.
A música e o cenário assumem proporções surrealistas, principalmente a arena dos duelos e os últimos capítulos da série. Comparados com o mangá, os cenários do anime são muito mais arrojados, muito embora a arte de Chiho Saito seja de tirar o fôlego.
Touga, apesar de tentar salvar Utena no final da série, não se aproxima em nada do herói tradicional, mantendo-se egoísta e canalha até o fim. Sua crueldade é tão grande que chega a surpreender Akio. Ah, no final do seriado de tv, ele também esquece Utena.
A maioria das sidestories, como a do Curry, por exemplo, é inserida na linha geral da história, sendo o arco da Rosa Negra um dos mais intrigantes, e o triângulo formado por Júri-Ruka-Shiori responsável por excelentes momentos. Aliás, Ruka, seja no mangá ou no anime, se tornou uma das minhas personagens favoritas, pena que apareça tão pouco!
Idéias como incesto e lesbianismo não são escamoteadas no anime e mesmo que o clima surrealista acabe fazendo com que as coisas não sejam tão chocantes, com certeza, não se trata de uma série para crianças. Entretanto, metade do que se fala da série é fruto do preconceito de quem simplesmente ouviu falar ou assistiu alguns míseros episódios. Aliás, a série é muito mais divertida e criativa do que chocante ... a não ser que a pessoa seja realmente muito sensível.
São perceptíveis as influências da obra de Ryoko Ikeda - Rosa de Versalhes e Brother, Dear Brother - em Utena. Seja no uniforme de duelo bem ao estilo do usado por Oscar, seja na postura da protagonista, ou mesmo no jogo de basquete que lembra as partidas protagonizadas por Kaoru no Kimi.
Akio e Dios são a mesma pessoa, sendo que Dios se apresenta quase impotente. Ao contrário do mangá, é Akio quem aparece para Utena na sua infância com o objetivo de atraí-la a arena de duelos para que no fim se torne sua noiva.
- MOVIE:
No movie, Utena se traveste de homem para freqüentar a academia e nada é dito do seu encontro anterior com o príncipe. Esses dois fatos são importantes, pois são totalmente diferentes do mangá e do anime, onde Utena sempre se apresenta como mulher e é guiada pelo desejo de ser/reencontrar o seu príncipe.
Seu comportamento é creditado a um trauma amoroso causado por Touga, entretanto, no fim da história, fica claro que ele era inocente.
Além disso, o trauma de Utena tinha na verdade outras razões ... Na minha opinião, este é o ponto alto do movie e, por isso, não vou entrar em detalhes.
Shiori - Eu odeio essa personagem! - salta de um papel terciário para a posição de quase protagonista. Ela mantém um caso com Touga, manipula Juri, deseja o lugar de Anthy e tenta impedi-la de fugir junto com Utena. Resumindo: É a peste com upgrade!
Nanami e ChuChu fazem uma inusitada participação ... em seqüências que parecem retiradas do episódio em que Nanami se transforma em uma vaca. Só quem assistiu, conseguiria entender ...
Não fica clara a relação entre Dios-Anthy-Akio, embora a questão do incesto persista. O papel de Akio é também muito diminuído e seu interesse por Utena não fica claro em nenhum momento ou talvez eu não tenha entendido ... Sinceramente, acho o filme muito confuso!
Saionji duelando é a cara de Dilandou de Escaflowne em seus momentos de fúria e loucura ... Simplesmente hilário.
Algumas personagens são desperdiçadas no movie, como Miki, Kozue e Saionji, mesmo Juri que tem o melhor duelo do movie não diz muito a que veio.
Anthy é, com certeza, a personagem que mais muda no movie e sua participação é, também, fundamental. Seu visual é modificado: o cabelo fica solto sempre, ela parece mais jovem, nada de óculos e o vestido ganha em leveza e perde em tecido. A personagem ganha também uma sensualidade que não tinha nem no anime nem no mangá e fica claro que o relacionamento entre a noiva da rosa e seu noivo é de cunho, principalmente, sexual. Utena literalmente a expulsa de sua cama! Além disso, o movie gira em torno da libertação de Anthy, libertação em relação ao mundo de ilusão que a mantém escravizada.
O movie tem uma mensagem libertadora, sem dúvida, mas as conotações yuri são claras, também, fato que o beijo final entre Anthy e Utena só vem confirmar. No movie elas terminam por formar efetivamente um casal, coisa que no anime e no mangá nunca ficaram evidentes.
- MANGÁ DO MOVIE:
Esse mangá foi uma excelente surpresa para mim, como não havia gostado do movie, pensei que ele poderia também me desagradar ... ainda bem que não deixei de encomendá-lo. A arte de Chiho Saito está melhor do que nunca e a história é realmente empolgante.
No mangá, Shiori, spawn of the devil, não dá o ar de sua graça e a cena de amor de Touga não é com ela, mas, sim, com Utena. Akio é o grande vilão, não Shiori, além disso, ele está, digamos, em sua melhor forma!
O príncipe de Utena é Touga e ela decide tornar-se como ele depois de ser abandonada. Ah, mantém-se o que foi feito no movie, Touga não a abandonou, ele morreu e ela, traumatizada, não consegue aceitar isso.
Anthy é bem sensual no mangá e igualmente tenta seduzir Utena. Só que no mangá, não existe a opção pelo lesbianismo. Utena ama Touga e quer ser amiga de Anthy. A noiva da Rosa no mangá é visivelmente comparada à uma prostituta.
Tanto Akio quanto Dios estão mortos, mas o espírito de Akio, assim como o de Touga parece preso ao universo paralelo da Academia. Anthy perdeu seus poderes desde que Akio morreu e este quer que ela os recupere, para isso precisa de Utena, um príncipe substituto.
No fim, para que sejam livres, ambas, Utena e Anthy tem que se libertar de suas memórias. É legal isso, pois muitas vezes, ficamos presos ao passado, um passado que bom ou ruim, nos impede de viver a vida e ir em frente.
Nanami não existe neste mangá, nem as meninas sombra. Saionji não é tão violento com Anthy nem se parece com Dilandau. Kozue, irmã de Miki é citada, mas não aparece, esse para mim é o grande furo do mangá. Se ela não iria aparecer, por que falar dela?
Juri ganha contornos interessantes: ela abomina o sexo e despreza Anthy. Aliás, Touga diz que todos os membros do Conselho dos Estudantes tem algum trauma de possível origem sexual em seu passado ... O de Touga é particularmente, cruel, pois foi abusado sexualmente por seu pai adotivo. Nisso manteve-se o que foi dito no movie.
Juri também é subaproveitada no mangá, mas sou suspeita de dizer isso, já que ela é uma das minhas personagens favoritas.
ChuChu aparece duas vezes: a primeira em um desenho feito por Anthy e a outra no final do
mangá. Aliás, Utena, ChuChu e Anthy terminam no cinema , como se todo o ocorrido não tivesse
passado de um filme.
|