Dias atrás terminei de ler o terceiro volume de Nodame Cantabile
um dos mangás femininos de maior sucesso no Japão atualmente. Ele foi o vencedor na categoria shoujo do último
Tezuka Cultural Award e também tinha levado o 28º Kodansha Awards na mesma categoria em 2004. Nodame é um
dos exemplos mais bem sucedidos daquilo que é chamado no Japão de josei, isto é, mangás para mulheres jovens e adultas.
Pelo que disse até agora, já deu para perceber que não existe categoria josei nas premiações
japonesas, assim como não existe – até onde eu sei, mas posso estar equivocada – uma separada para
seinen, que são os mangás para rapazes. O josei continua sendo colocado sob o imenso guarda-chuva do
shoujo mangá, assim como, apesar de muita gente discordar, os mangás yaoi ou BL, também.
Dentro da história do mangá, o surgimento dos josei foi tardio. Nós podemos situar a existência de quadrinhos
para meninas já no início nos anos 30 do século XX com a Shoujo Club. A revolução da narrativa promovida por Osamu
Tezuka veio nos anos 50 do mesmo século. Sim, Tezuka não criou o shoujo mangá, assim como não criou o shounen mangá,
ele trouxe a narrativa cinematográfica para o gênero e, no caso dos mangás para meninas, fez com que o esquema de
histórias curtas, feitas quase em forma de tirinhas de jornal, caíssem por terra com seu a Princesa e o Cavaleiro. Boom!
Para muita gente a história do shoujo mangá começaria aí. Não começou, mas Tezuka fez uma diferença enorme.
O shoujo mangá viveu outros momentos, o aumento da presença de mulheres mangá-kas nos anos 60, a revolução na
temática e na narrativa nos anos 70. Sim, quando as mulheres tomaram os seus mangás em suas próprias mãos, o shoujo
mangá mudou de cara e pode dialogar com um conjunto de leitoras adolescentes e cada vez mais velhas. Os homens –
que não conseguiam ou não queriam mais – falar às meninas, foram embora. É importante frisar o querer, porque, efetivamente,
o número de revistas de mangá para garotos cresceu e a
demanda, também. Deixar as revistas femininas para as mulheres não foi uma perda tão grande. Ainda nos anos 60
foram criadas as revistas seinen, para rapazes e muitas outras que visavam os homens adultos. Interessante é que
conforme o mangá se tornou main stream no Japão, a variedade de revistas aumentou, em temática e em direcionamento etário.
Ao contrário do que aconteceu com o shounen, o shoujo não criou uma divisão para mulheres jovens e adultas tão cedo.
Os anos 70 foi marcado pela diversidade e era possível encontrar mangás muito sofisticados e adultos (*eu não estou
falando de sexo aqui*) em revistas como a Margaret ou a Shoujo Friend. O público ficava mais velho, mas as revistas que lia eram
as mesmas. Somente em 1980, apareceu a primeira revista josei, a YOU. A partir daí, criou-se toda uma gama de revistas para acolher
tanto as mangá-kas que queriam trabalhar
temas mais maduros, quanto o público que estava cansando das coletâneas para adolescentes. Josei é
o nome mais usado hoje, mas as revistas para mulheres adultas também são chamadas de redisu ou redikomi ,
literalmente "ladies' comics").
Dentre das revistas josei podemos encontrar algumas que tentam agarrar as adolescentes mais velhas,
outras direcionadas para as OL – Office Ladies, algumas que trazem quadrinhos yaoi, outras que são pornográficas
em quase todas as suas histórias, como a Comic Amour, e até revistas que visam as jovens donas de casa e seus proiblemas,
como a Be Love. Hoje em dia,
há até revistas especializadas em histórias com animais e/ou veterinárias, como a
May Familiar - "Dog and Cat's Pet Comic" da pequena editora Shonen Gahosha.
Há vários exemplos que podem ser
vistos na seção de revistas
(1 – 2) que, aliás, precisa ser atualizada urgentemente.
Interessante é que nos anos 80, o josei não conseguiu fazer tanto sucesso. De acordo com Frederick Shodt, um dos motivos
seria o fato delas investirem pesado em histórias água com áçucar, romances folhetins, desse tipo que a gente
encontra em banca de jornal. Mulheres adultas queriam mais, as jovens, também, e mesmo que a linha Harlequim venda
horrores, não se pode viver somente disso. A maioria das leitoras então permanecia fiel às revistas
para um público mais jovem ou liam a Big Comics, na qual muitas autoras dos anos 70 também publicam, e muitas mulheres
deixavam mesmo de ler mangá. Foi na virada para os anos 90 que as coisas mudaram. Os temas se diversificaram, afinal,
quem disse que as mulheres queriam ler mangás formais? Que tal discutir temas como bulimia, anorexia, abuso sexual, depressão pós-parto,
AIDS, divórcio,
sexo dentro e fora do casamento, as ansiedades das jovens mães. Valia de tudo, inclusive
o humor escrachado, tudo isso fez com que as revistas se firmassem. Obviamente,
a queda de vendagens que é geral para todo o
tipo de mangá também fez vítimas entre as revistas josei, a mais sensível foi o fim da Young
YOU que não se salvou mesmo publicando o popular Honey and Clover.
Há controvérsias, como disse, se o josei seria algo à parte ou um braço do shoujo mangá, para mim, é um dos
subgêneros do shoujo, como os quadrinhos yaoi. ,
mas o fato é
que o termo "shoujo" se aplica cada vez mais às revistas para meninas e adolescentes.
Há também
discussão sobre se algumas revistas como a Cookie que publica Nana, já seria uma revista josei.
Matt Thorn no seu artigo Whither Girl’s Comics?
(Para quê Quadrinhos Femininos?) coloca Nana (Cookie), Honey and Clover (Young You, e agora Chorus) e Fruits Basket (Hana To Yume) como
shoujo mangá, enquanto apresenta Nodame Cantabile (Kiss). Eu já consideraria tanto Nana quanto Honey and Clover quadrinhos para mulheres
jovens ou no fim da adolescência, mas, enfim, não há consenso e tudo é shoujo mesmo. Mas Thorn levanta uma questão muito importante: os shoujo mangá parecem
estar passando por uma estagnação criativa, e, por isso, os josei tem ganhado espaço entre audiências mais jovens. Para ele,
o fato é que existem poucos trabalhos com real profundidade e a compensação com doses crescentes
de sexo, não tem ajudado. Além disso, os editores seriam em sua maioria homens de meia idade, que acreditam
que podem criar hits simplesmente reciclando velhas idéias. Esses editores não
conhecem nada dos tópicos que realmente interessam às meninas e mulheres jovens hoje em dia e estão matando o shoujo mangá de dentro para fora.
Thorn critica até - no que eu concordo com ele - a ausência das minorias, em especial os homossexuais de verdade que quando aparecem, não passam de
caricaturas que não ajudam em nada na sua aceitação e respeito.
Tomando pelo que o Thorn diz – mesmo que saibamos que nos EUA e em outros países o shoujo mangá
é uma novidade bem lucrativa – é mais do que hora de fazer uma outra revolução nos mesmos moldes do que foi visto
nos anos 70. De qualquer forma, segundo o Thorn, os quadrinhos femininos de maior
sucesso no momento, salvo
exceções como Fruits Basket, são josei. A coragem para lidar com assuntos importantes e os roteiros com mais
profundidade e inteligência têm feito a diferença. Nodame e Nana estão entre os mangás mais vendidos no Japão, por exemplo.
Só pra reforçar o que eu disse, saiu uma pesquisa da Oricon mostrando quais as revistas
favoritas das jovens japonesas.
Foram entrevistadas 3000 mulheres, a maioria no fim da adolescência. A Shounen Jump vem em primeiro lugar.
Quando tentei traduzir o texto da matéria pude ver que as moças diziam gostar da Shounen Jump “porque é de lá que vem
os animes”, “porque adoram os dubladores”, e por aí vai. Volta e meia me pergunto
porque não fazem mais shoujo animes das séries
de ponta, salvo as muito infantis. Mas, eis a lista:
#1. Weekly Shounen Jump
#2. Monthly Cookie (NANA)
#3. Bessatsu Margaret (Cat Street, Crimson Hero)
#4. Hana to Yume (Skip Beat, Furuba, Gakuen Alice)
#5. Shoujo Comic (MoeKare, BokuKimi)
#5 Weekly Shounen Magazine (Negima, Air Gear, Tsubasa)
#5. LaLa (Kin'iro no Corde, Haruka naru Toki no Naka de)
#8. Kiss (Nodame Cantabile)
#9. Chorus (Honey & Clover, Ichijou Yukari works)
#9. Dessert (Cosplay Animal)
A lista sinaliza o quanto os lucros dos shounen mangás – Thorn comenta em seu artigo que muitas
das suas alunas dizem preferir shounen – dependem da audiência feminina que lê porque curte os mangás
em si e seus animes, ou porque deseja material para seus fanzines yaoi. De qualquer forma, por mais que se fale
em crise dos shoujo, lá estão a Bessatsu Margaret, a edição especial da versão que existe desde 1963, e a cada vez mais
carregada de sexo Sho-Comi muito bem colocadas. Temos a LaLa que vai muito bem votada, talvez menos por
Harukanaru e mais por possuir um conjunto interessante de mangás, e, claro, a Hana To Yume tem Fruits Basket
a seu favor, junto com outros mangás de peso. Mas e as outras?
As outras são as revistas josei que trazem mangá-kas experientes como Ichijou Yukari ou hits como
Nana e Nodame Cantabile. É preciso lembrar, também, que muito das novelas japonesas – os doramas –
são feitos em cima de mangás femininos.
Realmente bons shoujo animes ajudariam, mas lá para as japonesas, adultas as novelas são mais importantes, ao que parece.
Com a Internet ficou até mais fácil para nós aqui no Brasil assisti-las também. As que caem na rede normalmente
são curtas e objetivas. Muito diferente do puxa-estica que vemos em nosso país. Como já comentei aqui fiquei
maravilhada em ver como conseguiram colocar esplendidamente bem a idéia geral dos 36 volumes de Hana Yori
Dango em 9 capítulos de uma hora.
Falando nisso – antes que eu me perca – muitos dos josei mangá de maior sucesso
tem se tornado novelas ou live actions ultimamente.
Kimi Wa Pet virou série live. Gokusen foi tão bem que
teve duas temporadas e até série animada. Nana teve um movie, com seqüência garantida, e, por conta do sucesso, vai virar anime,
também. Designer, cujo mangá é de 1974, e Tadashii Ren'ai no Susume de Ichijou Yukari foram transformadas em doramas de sucesso em 2005.
A lista é enorme e se eu fosse mais interessada em novelas japonesas certamente poderia citar montes de
outros mangás que josei para engrossar a lista. Enfim, não me espantaria se Nodame virasse
novela mais cedo ou mais tarde.
Um dos detalhes importantes dos josei mangá é que nem sempre o traço é bem cuidado ou bonito.
Fica claro desde o início que a ênfase está na história, nos temas de interesse das mulheres dos dias de
hoje, nas personagens e não se pretende pegar ninguém pelos bishounens ou pelas meninas kawaii.
Mesmo autoras de traço rebuscado e bonito, podem produzir mangás que parecem muito diferentes
daqueles que faziam na Ribon ou na Nakayoshi, por exemplo.
Já me encaminhando para o final, tenho que dizer que os mangás josei que tem aparecido no
ocidente são muito bons. Muita gente gosta muito de Nana ou Honey & Clover, mas há outros a
se recomendar, alguns, por terem sido licenciados nos EUA (*Eles não são bobos, né?*) alguns são difíceis de achar, mas outros
estão sendo traduzidos por fãs.
Kimi Wa Pet teve muitos capítulos traduzidos antes de ser licenciado pela Tokyopop, tem resenha da série aqui na Shoujo House. Nodame saiu
tão rápido que ninguém traduziu. Honey & Clover vai vagarosamente. Agora, Gokusen seria um bom lugar para começar, já que as scanlations da
série andam muito avençadas. Como não fiz resenha de Gokusen ainda, eis um pequeno review: Moça órfã, neta de um chefe da Yakuza, decide se
tornar professora. A criatura parece inofensiva, mas é muito habilidosa em artes marciais e absolutamente capaz de se virar sozinha.
Recém-formada é enviada para dar aulas em uma escola masculina cheia de alunos prontos a entrar no mundo do crime. Só que ela tem uma
lição a ensinar e não quer que nenhum aluno se perca. Risadas garantidas.
Quem gosta de GTO - Great Teache Onizuka - muito provavelmente vai simpatizar com Gokusen.
Como fã de Nodame Cantabile, Gokusen e Kimi Wa Pet, levo muita fé no potencial dos josei. Queria muito que mangás como
Papa has Told Me, que fala do dia-a-dia de uma menina criada pelo pai viúvo, ou histórias como Shibo to iu na no Fuku o Kite de Moyoko Anno
que trata de anorexia e bulimia pudessem ser traduzidos pelos fãs. Se me perguntassem qual josei tem chance de chegar aqui no Brasil, eu
diria Nana sem pestanejar. Só que em nosso país, nunca se sabe, e o desprezo pelos mangás femininos, infelizmente, ainda é grande.