Kakan no
Madonna que em português poderia ser
traduzido como "A Madonna Coroada" é um mangá da mesma autora de Shoujo Kakumei Utena,
Chiho Saito. Composto
de sete volumes (quatro na reencadernação)
começou a ser publicado no ano de 1992 na revista Petit Flowers (**Preciso confirmar esta informação.).
Madonna foi mais uma incursão da autora - talvez a mais bem Ryoko Ikeda
sucedida - no shoujo mangá com fundo histórico, subgênero criado vinte anos antes pela
genial
com a sua Rosa de Versalhes. Aliás, a própria Saito, em um dos
seus free-talks, comenta que ao escolher o país da sua história teria evitado a
França porque esta já tinha a Rosa de Versalhes, não precisando de mais nenhum mangá.
A autora
pensou
na Inglaterra, mas que esta seria muito fria, e em Portugal e na Espanha, mas acabou escolhendo a Itália dos Borgia, dinastia
espanhola que deu dois papas à Igreja Católica e cometeu uma série de abusos (assassinato, incesto, simonia,
e por aí vai) que até hoje deixam muita gente surpreendida.
Nesta sua obra, Chiho Saito, também discute
mais uma vez - vide Shoujo Kakumei Utena e seu primeiro mangá, A Mademoiselle e a Espada - as questões de gênero,
colocando em discussão os papéis femininos e masculinos através do drama da protagonista.
A Madonna Coroada é ambientado no Renascimento italiano e conta a história de Leonora, moça burguesa,
pobre,
que acaba sendo dada pelo pai em casamento ao irmão do governante da cidade de Pádua que era seu companheiro de jogos e,
principalmente, de esgrima, também especialidade da moça. O casamento
por interesses não era algo incomum na época e a moça se submete à autoridade paterna, estranho no entanto,
era um moço rico e nobre aceitar casar com uma mulher que não tivesse dote compatível. Leonora
pensa portanto
que mesmo não amando é amada. No dia de seu casamento, um cavalo entra em disparada na cidade, ameaçando
as pessoas. Leonora retira seu véu e o atira sobre os olhos do cavalo que assim é dominado. O belo cavaleiro
então a reconhece e a chama de "Madonna Coroada" para espanto da moça. Só que o cavaleiro também é reconhecido como sendo
o rei de Nápoles, inimigo que portanto deveria ser preso. O rapaz foge, mas deixa Leonora impressionada.
Na sua noite de núpcias, a moça descobre que não era amada e, pior, é quase violentada por seu jovem marido - esse
fato também deveria ser mais do que comum na época... e, porque não dizer, ainda acontece nos dias do hoje. Mas o ato
é interrompido por um dos acessores do jovem noivo, Don Popolo, que acaba deixando a noiva, sob protesto,
para resolver alguns problemas urgentes.
Leonora sai na ponta dos pés e se põe a escutar atrás da porta. O que descobre é que "A Madonna Coroada"
seria um quadro de Leonardo
da Vinci, pintado 20 anos antes, ou seja, Leonora nem era nascida. Assim, Paolo, seu marido, confessa
que se casara com uma moça de tão baixa posição porque ela era a própria Madonna e, de acordo com antiga lenda, traria
em seu corpo a chave para encontrar uma lendária espada. Quem possuísse essa espada seria o rei da Itália e poderia
reconstruir o
Império Romano. Leonora assustada, acaba caindo em uma câmara secreta
onde se encontrava a pintura da Madonna. Decidida a descobrir o mistério e,
quem sabe conseguir a espada. Ela rouba o quadro e foge. No
caminho, encontra um mercador a quem oferece seus preciosos cabelos cor de prata em troca de roupas masculinas e
tintura para cabelo.
Vestida de homem e com cabelos curtos e negros, ela se torna Leo e parte em busca de Leonardo da Vinci.
Em sua jornada acaba reencontrando o Rei de Nápoles, Falco, que está desfalecido e
faminto na beira da estrada.
Graças ao seu talento com a espada, conseguem juntos escapar
dos guardas enviados por seu marido, já ciente
do disfarce da moça. Ambos se tornam companheiros de viagem, já que
Falco também tem a intenção de encontrar Da Vinci e tentar conseguir a espada restaurando a glória de seu reino.
A partir daí começam a vagar juntos pela
Itália, encontrando várias personagens como Maquiavel; o próprio Leonardo Da Vinci, que revela que o segredo da
Madonna estaria em seus brincos (*Leonora,
infelizmente, só possui um deles*); e, também, os ambiciosos irmãos Bórgia, César e Lucrécia,
os filhos do Papa.
Estes, aliás, são importantíssimos para a história, pois Lucrécia,
possui o outro brinco. E César, interessado também na espada
lendária, reconhece de cara que Leo, além de mulher, ainda
é a Madonna e a seqüestra, não sem antes humilhar
Falco por sua pobreza e por não ter descoberto que "seu companheiro" de viagem era uma mulher.
A ambientação renascentista é um prato cheio para que Saito se esmere ainda mais no seu traço e
explore as dificuldades de Leonora em
manter a sua identidade feminina em segredo. Fora
isso, Madonna é um romance histórico no estilo capa-e-espada. A autora, claro, toma muito mais liberdades
com os fatos históricos do que Ryoko Ikeda ou mesmo Chie Shinohara em Anatolia Story.
Quer um exemplo?
Saito transforma Leonora em Papisa! Quem já ouviu falar
da lenda medieval da Papisa Joana, sabe exatamente de onde saiu a sua inspiração. Nada disso, entretanto,
diminue a força e a beleza de sua Madonna.
O que li até agora do mangá me agradou bastante e as sinopses dos outros volumes só fizeram aguçar ainda mais
a minha curiosidade. Por isso mesmo não resisti e encomendei na Fonomag o mangá inteiro.
Não me arrependi, pois a arte de Chiho Saito é espetacular.
Para quem tiver o interesse de ler um pouco da Madonna Coroada basta ir a página do
grupo que está cuidando das scanlations o Mangascreener e obter o mangá via
Mirc ou Torrent. Eles já avançaram bastante na tradução e, no momento em que escrevo
(28/09/2003),
o mangá já está no capítulo 11. Aliás, a Itália Renascentista e César Borgia voltaram à moda, e estão sendo
enfocados em outro excelente mangá, Cantarella. Bem, é isso,
queria muito ver algo de Chiho Saito no nosso país e a Madonna seria talvez uma grande pedida. O mangá, aliás, já foi publicado
na Itália, assim como outras obras da autora, e, como sempre, fez um grande sucesso.