O mangá da Rosa de Versalhes começou a ser publicado na revista
Margarete no ano de 1972 e está fazendo portanto 30 anos. Nós, brasileiros,
infelizmente só tivemos contato direto com 12 episódios do anime. Eu mesma, que consegui assistir toda a série de tv,
até pouco tempo atrás não sabia das diferenças entre o mangá e o anime da Rosa de Versalhes.
Agora
que li o mangá graças aos scripts disponibilizados na net,
consigo perceber a distância entre uma obra e outra
e essa nova seção tem como objetivo falar sobre elas. Se você não gosta de spoilers
aconselho a parar
a leitura por aqui, ok?
Um primeiro ponto que precisa ser ressaltado é que o mangá é centrado em duas personagens femininas,
Maria Antonieta e Oscar. No anime, Oscar ganha status de única protagonista e a rainha é deslocada para a posição
de coadjuvante.
Boa parte do
primeiro volume do mangá, por exemplo, é centrado em Antonietta, sua educação e preparação
para se tornar
rainha da França, assim como agrande preocupação de sua mãe, a Imperatriz Maria Teresa,
com que futuro teria sua filha
"desmiolada". André, que no anime tem uma grande importância desde o primeiro capítulo, só deixa de ser uma personagem menor
(o que só reforça sua
concepção de sombra de Oscar) a partir do terceiro volume do mangá quando
ganha força e começa a se desenvolver o seu romance com Oscar. Pelas informações que consegui, isso se dá
por pedido das fãs, e Ikeda atende maravilhosamente bem.
O mangá também mostra uma Oscar mais humana, e sua vulnerabilidade e dúvidas só
ressaltam a força
da personagem, deixando evidentes as contradições e tensões de uma pessoa que é
obrigada a mascarar
seus sentimentos e não pode se expressar como mulher.
Oscar no mangá, pelo
menos a partir do volume 3 (Edição Bunko) tem
noção da sua feminilidade e de que essa apesar
de dificultar não impossibilitaria o seu sucesso profissional. No mangá Oscar toca
violino e, não, piano como no anime. Aparece lendo Voltaire e Rousseau, ícones do Iluminismo francês,
sendo repreendida
por seu pai. Já no anime é
através de André que ela conhece as idéias revolucionárias
e por causa
do seu amor por André que começa a questionar seus privilégios.
O humor também é muito presente no mangá de Ikeda (seguindo talvez a tradição de Osamu Tezuka.
Vocês estão lendo A Princesa e o Cavaleiro, não é?) que coloca piadas visuais mesmo
em situações carregadas de tensão. E o humor também não fica restrito à
personagens secundárias como a
avó de André, pois até a própria Oscar, que no anime mal dá um sorriso na série inteira,
também participa das gags.
No anime André corta voluntariamente o cabelo para ficar parecido com o
Cavaleiro Negro, mostrando-se sempre pronto a ajudar Oscar em seus planos. Já
no mangá ele é obrigado a abrir mão de seu lindo cabelo por Oscar e sua avó.
O Cavaleiro Negro (Bernard) aparece no volume dois do mangá e, em uma cena que não se encontra no anime,
tenta "assaltar" Oscar depois do baile no que ela se veste como uma dama. O que o ladrão não esperava
é que Oscar reagisse violentamente e lhe desse um murro... aliás, foi uma boa maneira de liberar a sua tristeza
depois de tomar consciência de que não poderia amar e ser amada por Fersen. Ainda no mangá, o Cavaleiro Negro
invade a casa de Oscar e seqüestra Rosalie. No mangá é
Rosalie que atira no Cavaleiro Negro para salvar Oscar enquanto no anime é a própria Oscar
que atira. Ainda
sobre Bernard/Cavaleiro Negro, ele fica convalescendo na casa de Oscar e durante esse
período passamos
a conhecer a sua infância e se inicia seu romance com Rosalie.
Rosalie é uma presença muito mais marcante no mangá. Ela é adotada pela família de Oscar,
passa a freqüentar a corte com regularidade, se aproxima de sua irmã Charlotte, e depois de sua morte
é chantageada pela Polignac para que fique no lugar da irmã morta. No anime, é aí que ela desaparece para
reaparecer muito depois e casada com Bernard. No mangá, ela reencontra Oscar e é trazida de volta à residência dos
Jarjayes. É lá que começa seu romance com Bernard, que a havia ajudado quando da morte de sua mãe,
e de lá ela só sai casada com ele. Também é muito mais explícito o amor de Rosalie por Oscar, sendo que até André percebe, mas Ikeda
não investe nas possibilidades shoujo-ai de sua história. Isso se explica pelo direcionamento da história
e pela época em que foi feita, mas o fato de todos (independente do sexo biológico) se apaixonarem por Oscar só
se encaixa no clichê da heroína loura perfeita que encanta e fascina a todos, independente da sua vontade.
Saint-Just no mangá não é o psicopata assassino do anime, apresentando-se bem próximo
da sua imagem histórica. Aliás,
parece que a forma que usaram para fazer o saint-Just no anime foi a mesma que usaram para a
personagem Pelóia no anime Rei Arthur que passou no SBT na primeira metade da década de 1980. Deveria
ser mais um dos clichês da época. Além disso,
Oscar pensa que ele é uma mulher na mesma situação que ela. O mangá também mostra
uma aparição do jovem Napoleão Bonaparte e Oscar prediz
que o rapaz terá um futuro brilhante.
No mangá a mãe de Oscar se faz bem mais presente durante todo o mangá
e é para ela que Oscar corre no
momento em que
começa a se questionar sobre sua condição. No anime, a mãe de Oscar é apagada depois
do incidente com Madame DuBarry e somente o pai parece ter importância em sua vida.
Outra personagem bem diferente no
mangá é o Duque
de Órleans que no anime é o vilão idealizado: alto, bonito e ameaçador.
Na obra original
de Ikeda ele é mais parecido com o resto da família: estatura mediana, gordinho e narigudo.
Além disso, não é apresentado de maneira maniqueísta como no anime.
Os filhos de Antonieta, no mangá, tem sua legitimidade contestada
por membros da corte e pelos
irmãos do rei,
enquanto no anime nada é dito, embora se sugira na narrativa que
pelo menos o último é filho de Fersen.
Fora isso, Luís XVI se mostra consciente do amor de Antonieta pelo
Conde Fersen e não a
condena, apesar de se mostrar profundamente entristecido por não ter conquistado o amor
da
esposa. O mangá
também mostra a irmã de Fersen, Sophia, e a irmã caçula de Luís XVI, Madame Elisabeth, que
também morre na guilhotina.
Quando o pai de Oscar organiza um baile para arranjar-lhe um noivo, no mangá Oscar tem uma reação
muito diferente da do anime.
Na série de tv ela simplesmente diz que não tem disposição nenhuma em se casar e abandona o
baile, já
no mangá Oscar fica na festa, dança e flerta com as moças presentes, beijando inclusive uma delas.
Agindo assim, acaba afastando os pretendentes, menos Gerodelle
que se mostra apaixonadíssimo.
Girodelle no mangá sabe que André ama Oscar e se mostra disposto a não separar os dois
depois de se casar com ela desde que André se
conformasse com a
situação e permanecesse sempre em posição subserviente. é Girodelle também quem
mostra a Oscar que ela ama André. Com a situação, André vai ao desespero e tenta
envenenar Oscar, matando-se depois, mas se
arrepende. É Oscar quem põe fim a história em uma conversa muito séria com Girodelle.
No mangá a tentativa de estupro de André tem muito menos impacto sobre Oscar do que no
anime onde a violência
funciona como uma tomada de consciência da sua condição feminina.
Como resultado, ela se obriga a viver de
forma mais masculina.
Já no mangá, o pai de Oscar oferece grande oposição a entrada da moça para os guardas de França
ressaltando que
sua condição feminina a tornava incapacitada a estar
em um exército de
verdade,
e que deveria parar de querer
brincar de soldado. Na obra de Ikeda, o General Jarjayes claramente se arrepende de ter
criado Oscar como um homem, deixando claro que queria simplesmente fingir que tinha um filho, não
imaginando que poderia perder o controle sobre ela. Além disso, é ele quem obriga
André a entrar para a tropa para proteger Oscar, no anime isso é decisão do rapaz.
No mangá o General comandante dos Guardas de França é inimigo do pai de Oscar e a
persegue. A resistência
dos soldados, a maioria deles com nome e sobrenome, também é muito maior que no
anime.
Alain, no mangá, é um membro da pequena nobreza e, depois de se insubordinar várias
vezes, acaba apaixonado por Oscar, inclusive beijando-a à força, na cena que considero ser a única incoerente do
mangá. Esse episódio não está no anime, nem o fato de Alain se apaixonar, como resultado perdemos
também a reação de
André que parte para cima dele.
No anime o romance de Oscar e André se resume quase a uma única noite de amor na
floresta, ja no mangá
a relação dos dois é muito bem desenvolvida. Oscar declara seu amor e os dois vão se tornando
mais e mais próximos
até que terminam fazendo amor no próprio quarto de Oscar, sendo que ela convida o rapaz e
declara suas intenções. A seqüência é longa
e extremamente poética, com certeza, um dos pontos altos da história. A aceitação do seu
amor por André também
não faz Oscar desejar abandonar a sua posição no exército como no anime (Essa é a passagem
que eu mais odeio na série de tv: "Agora sou esposa de André Grandier e devo
obedecê-lo, só lutarei se ele permitir que eu faça isso.")
nem tão pouco participa da Revolução por causa de André. No mangá,
Oscar é movida sobretudo por suas convicções
e pela sua consciência. O acordar de Oscar para o amor gera também
uma das cenas mais sexies e engraçadas do
mangá, pois Oscar "perde o rebolado" quando entra em seu gabinete
e vê André sem camisa. Obviamente, não faço a mínima idéia de porque ele
escolheu esse lugar para se trocar mas...
No mangá, a tuberculose de Oscar não ganha tanto destaque quanto no anime,
não existe exame médico nem tão
pouco o conselho de abandonar a vida militar. Aliás,
no anime a doença é usada para ressaltar que Oscar estaria levando um estilo de vida inadequado,
e por causa disso sua vida estaria ameaçada. Obviamente, foi sua fraqueza feminina que a condenou
e deveria aceitá-la e mudar de vida. Quanto a cegueira de André ela recebe
muita atenção mas
a cena do quadro entretanto não é tão
magnífica quanto a mostrada no anime. Para quem não viu o anime, a cena é a seguinte:
André está praticamente cego, e Oscar pergunta o que ele acha do quadro, o rapaz não querendo revelar sua situação
descreve o quadro com uma riqueza incrível de detalhes expressando todo o seu amor. Claro que o quadro
é totalmente diferente, mas quem se importa? Oscar se põe a chorar. No mangá, Oscar chora ao ver o quadro porque ele
a retrata jovem e saudável, enquanto ela sabe que está tuberculosa...
O anime de Lady Oscar, é preciso dizer, foi uma obra com alguns sobressaltos. A primeira parte
do anime foge um pouco do tom do mangá tentando introduzir mais "aventura" em um mangá no qual todas
as seqüências de ação estavam muito bem amarradas. Assim, surgem tentativas de seqüestro e atentados
à vida de Antonieta, o duelo de oscar que no mangá não ocorre, criancinhas doentes, enfim, muita correria
que come o espaço de acontecimentos do mangá de Ikeda. Agora de tudo o que aconteceu de mais absurdo na
primeira parte da série de tv dirigida por Tadao Nagahama (episódios 1-18) o pior foi a discussão
em torno da esterilidade de Antonieta, algo sem fundamentação histórica nem base no mangá, e a acusação
feita pela Polignac de que Oscar teria assustado a rainha conduzindo-a a um aborto. A cena é forçada e depois
a questão não é retomada... A partir daí, muda o diretor e o anime toma ares mais sombrios. O competente
Osamu Dezaki de Ace Wo Nerae e Oniisama E... assume a série a partir do episódio 19 e muda um pouco o
tom da história. Dezaki torna o drama de Oscar mais intenso, as cores de fundo mudam das cores quentes para as frias, as
personagens ganham mais estatura, mais ombros. Isso não deforma o character design de Shingo Araki e Miki Himeno mas
faz lembrar o estilo do companheiro mais constante de Dezaki em seus trabalhos: Akio Sugino. Eu duvido muito que
se Dezaki tivesse sido a primeira escolha de diretor, Sugino não tivesse sido escalado para character design. Mas o estrago,
talvez o grande estrago da série já estava feito: Oscar no anime é a pessoa atormentada, a mulher reprimida, empurrada
para um destino que não é seu e que no intimo só deseja ser amada, protegida, abandonar sua carreira, casar e
ter algum homem a qual obedecer. A própria seqüência do baile diz tudo: Oscar se torna uma deusa, ve-la com vestido e salto alto
é ver uma deusa. Ela consegue andar, respirar com espartilho, dançar como se tivesse sido feita para isso... E na concepção
do anime, ela foi. Já no mangá, ela reclama do espartilho, tropeça na barra do vestido, pragueja e mesmo linda diz que
jamais voltaria a fazer aquilo, porque não valia o sacrifício. Queria ser amada sendo Oscar, não sendo
uma caricatura de si mesma.
Espero que os leitores possam perceber que meu objetivo aqui não é dizer que o anime
é ruim mas mostrar as mudanças que foram feitas e como essas influenciaram o aprofundamento
psicológico das
personagens. Deixo claro entretanto que a Oscar do mangá me parece muito mais fascinante agora
que a conheço
e que como feminista fico feliz em vê-la tomando posições pela sua própria consciência e não
por causa de André ou de seu pai ou de Fersen. Além disso, a Oscar do mangá,
apesar de suas dúvidas e ansiedades, não
descarta nunca
a posição que conquistou. Sim, porque Oscar foi um marco em seu tempo e acredito piamente
que uma mensagem de Ryoko Ikeda para aquelas mulheres que tentavam a todo custo um lugar no
mercado de
trabalho, não até que se casassem ou para complementar a renda do marido, mas por vontade,
competência e desejo
de serem senhoras do seu destino. Essa mensagem de independência e perseverança
para as mulheres é tão forte que mesmo 30 anos depois a obra de Ikeda
continua viva e extremamente atual.