Princess Nine



No Brasil, o único anime de esportes exibido foi Super Campeões, por se centrar no nosso "esporte nacional": o Futebol. Limitadas como são as opções esportivas mo Brasil não é de espantar que animes de esporte não sejam sequer cogitados para serem exibidos em nossas tvs. Por causa disso deixamos de assistir clássicos como Ace wo Nerae (tênis)e Attack, Nº1! (vôlei), além de todos os animes baseados nas obras de Mitsuru Adachi (baseball, box, softball, etc) e o recente Tennis no Oujisama. Entretanto, com o advento da internet e os fansubers digitais nós brasileiros podemos ter contato com esse imenso universo dos mangás e animes esportivos, sucesso tanto entre meninas quanto entre meninos em um país onde os horizontes do esporte são muito mais amplos do que os nossos ...

Princess Nine (Princess Nine Kisaragi Joshi Kou Yakuu-Bu. 8/04/1998-14/10/1998) é um anime centrado em um esporte no qual nós, brasileiros, não temos nenhuma expressividade ou intimidade, mas que no Japão tem status de esporte nacional: o baseball. Independente disso, e sou bem sincera em dizer que não sei *NADA* de baseball para além do que aprendi vendo Snoopy (Peanuts), esse anime fala de força de vontade, trabalho em equipe, amizade e, principalmente, da luta contra a discriminação sexual. Princess Nine é baseado não em um mangá mas uma história, de autoria de Kensei Date, que fala do crescente interesse das meninas japonesas pela prática do baseball e dos obstáculos encontrados por elas. Sendo um país de cultura extremamente gendrada, isto é, onde ainda predominam espaços muito rígidos para o exercício da identidade masculinaRyo e feminina, algumas áreas ainda permanecem fechadas às mulheres, o mundo do baseball é um deles, pois não existem (ou pelo menos não existiam na época) campeonatos femininos desse esporte. Tanto no Japão, quanto nos EUA, outro país onde o baseball é importante, as meninas são estimuladas a praticar softball, uma versão "light" do baseball com status Olímpico inclusive. Assim, parece que não está havendo nenhum preconceito, nem discriminação, mas acho que o "soft" da coisa e o fato de nenhum homem trocar o baseball - e seus salários - por soft ball já diz tudo. Podemos ver a prática do softball em animes como Sailor Moon e Azumanga Daioh e Seito Shokun, por exemplo. O baseball, obviamente, tem mais prestígio, fama, gera salários muito mais gordos do que aqueles do softball e tem um campeonato juvenil prestigiadíssimo no Japão que culmina com a partida final no lendário (pelo menos para quem está acostumado com as histórias de Mitsuru Adachi!) e magnífico estádio Koshien. Seria a mesma emoção de no Brasil jogar uma partida final de futebol no nosso Maracanã ... Claro que tanto aqui quanto lá esse privilégio é somente masculino. Bem, este é o ponto de partida de Princess Nine.

Ryo Hayakawa é uma menina de 15 anos cheia de vida e energia, perseverante e corajosa. Ela mora com a mãe que é viúva e a ajuda a tocar um restaurante de oden (uma comida típica japonesa), seu pai, que morreu quando ela era criança, foi um grande astro do baseball e passou para a filha a paixão pelo esporte. Ryo pretende largar os estudos quando terminar o ginásio e ajudar a mãe no resturante, se dedicando paralelamente a ser lançadora do time de baseball dos operários do bairro onde mora, os Wildcats. Sua bola é extremamente rápida e violenta, igualando quase a de um arremessador (homem) profissional. Um dia, no qual Ryo chega atrasada da escola e tem que correr para o jogo ainda vestindo seu uniforme escolar, para delírio dos jogadores do time adversário que juntam o fetiche que os japoneses parecem alimentar por colegiais em uniforme e o desprezo por ela ser somente uma menina. Ryo, apesar da pressão, faz uma jogada perfeita e conduz os Wildcats à vitória. À distância uma mulher muito bem vestida a observa de dentro do seu carro e é por causa dela Izumi que a pacata vida de Ryo vai mudar.

A mulher se chama Keiko Himuro é diretora de uma conceituadíssima escola particular para garotas, na verdade, ela é diretora de duas escolas gêmeas, uma feminina e uma masculina, que ficam lado a lado. Por mais estranho que seja, este tipo de instituição ainda parecem existir em países de língua inglesa como Inglaterra e Austrália (Vejam o excelente filme, com nome bem infame, Flertando - Aprendendo a Viver que se passa nesse tipo de escola. É ótimo!!!) e deve ter sido esse o modelo imitado pelos japoneses. Pois bem, a senhora Himuro pretende montar um time feminino de baseball, não para disputar uma liga feminina mas para disputar com os rapazes e chegar até a final no Koshien. Obstinada e competente, ele entra em combate com os membros do conselho consultivo da escola, composto somente por homens, que colocam todo o tipo de obstáculo, a começar pela "natural" fragilidade feminina e o desvirtuamento da missão primordial da escola que seria a de formar "boas esposas e mães", até o fato da liga não aceitar mulheres jogando com homens. (Se eu contasse como elas chegam até a liga, eu entregaria toda a história, só digo que a coisa acaba acontecendo, mas não esperem nada muito clichê no fim da história.) Além disso, Himuro, no passado, foi noiva do pai de Ryo, mas quando a carreira do jovem foi sabotada, os dois terminaram sendo obrigados a se separar. Para a diretora, a menina teria herdado o talento do pai e ela Himuro estaria resgatando sua memória dando a chance de jogar à Ryo. Na sua luta para montar um time, Himuro contrata um treinador que outrora foi grande jogador de baseball mas que se entregou ao alcoolismo (Qualquer semelhança com a personagem de Tom Hanks em Uma Equipe Muito Especial(A League of Their Own, 1992) não é mera conhecidência.) e a ele caberá testar Ryo para ver se ela realmente tem o dom.

O teste consistiu em mandar dois sujeitos até o restaurante da mãe de Ryo, para provocarem e obrigarem a menina "prodígio" a mostrar seu valor. Os dois sujeitos são jogadores profissionais de baseball, mas de times pouco relevantes. Ryo vence, só que um rapaz que passava, e assistiu o desenrolar dos acontecimentos, decide desafiá-la. O garoto em questão, Hiroki, é um exímio batedor e grande esperança do baseballO time completo juvenil. Ryo não consegue superá-lo mas sai de certa forma vencedora... E o rapaz acaba caindo de amores por ela. Depois de provada a sua competência, Ryo recebe uma carta convidando-a para uma entrevista na conceituada escola dirigida pela Senhora Himuro. Se aprovada na entrevista terá uma bolsa integral para todo o Colegial, desde que participe do time de baseball. Depois de resistir um pouco, a menina cede.

Quando chega na escola reencontra o Hiroki e descobre que ele estuda lá. Passando por uma quadra de tênis ela vê uma exímia jogadora que sozinha enfrenta dois rapazes, vencendo os dois. A moça em questão é Izumi Himuro, filha da diretora, promessa do tênis, e apaixonada por Hiroki desde a infância. Ela e a mãe parecem não se dar muito bem, e o súbito interesse por Ryo das duas pessoas que Izumi mais ama no mundo faz com que ela desenvolva uma grande animosidade pela recém-chegada... animosidade que no futuro (Foi o melhor episódio da série, o que elevou Izumi ao status de minha personagem favorita) não vai impedi-la de entrar para a equipe de baseball. Quem melhor do que ela para conseguir rebater a potente bola de Ryo provando para sua mãe e Hiroki que ela é melhor do que a garota?

A diretora

Bem, mas não se faz um time com uma jogadora só e a partir do episódio três o seriado vai juntando a equipe, que precisa ter no mínimo 9 meninas. E elas vão chegando: uma tomboy; uma menina judoca que sofria discriminação por ser alta, grande e gorda demais mas que é perfeita para segurar as bolas de Ryo; uma batedora que tinha sido expulsa de um time masculino quando a imprensa descobriu que ela era uma moça; uma rebelde e excelente corredora que tinha abandonado o esporte por causa do divórcio dos pais; uma jogadora de softball que joga disfarçada porque é filha do homem que é um dos maiores obstáculos a existência do time; e uma menina que parece absolutamente fora do ar mas sempre está no lugar certo para pegar a bola. O treinador, apesar de não levar muita fé nas meninas, ajuda a reunir o time mas aceita uma aspirante a atriz que não entende nada de baseball como jogadora... Bem, vocês entendem, né? Ela tem outros atributos que o interessam. Ah, e tem uma personagem que até agora me pareceu extremamente chata e clichê que é Nêne, a manager do time. Sua função é ser kawaii na voz e na aparência, animar as meninas e lavar os uniformes do time. Bem, mas ela é esforçada e até consegue uma jogadora para o time.

Agora, falando um pouquinho do character design da série de tv: ele deliberadamente flerta com o estilo shoujo anos 70. Tal intenção fica evidente na personagem Izumi, que mesmo com cabelo preto/azul e não louro, tem a clássica aparência da linda e perfeita antagonista ostentando os impecáveis cachos já vistos em Miya-sama de Brother Dear Brother, Ayumi Himekawa de Glass Mask e Reika Ryuuzaki de Ace Wo Nerae. mangáOutro ponto positivo é que mesmo brincando com velhos estereótipos, a protagonista, Ryo, não é alguém que precisa desesperadamente de um treinador para aprender o esporte. Ela já é excelente, além de corajosa, madura e segura de si. Talvez seu ponto fraco seja o coração (***O final da série é bom e ruim por causa disso.) mas de resto ela só precisa se aprimorar e todos que a vêem sabem do que ela é capaz sem precisar serem visionários como em Ace Wo Nerae, Glass Mask ou Gunbuster.

Princess Nine não é um clássico, nem uma obra-prima, é somente um anime simpático e bem legal, na melhor tradição dos emocionantes e ultradramáticos animes/mangás de esporte. Ah, falando em mangá, acabei descobrindo que a série gerou sete volumes de mangá, além dos 26 episódios da série de tv. Talvez o mangá vá além do que a série foi, já que ela termina com jeito de quem pedia uma segunda temporada. Mas o grande ponto positivo de Princess Nine, a meu ver, é tocar na questão do preconceito contra a mulher no mundo dos esportes, algo muito pouco discutido. Recomendação feita! Se puderem não deixem de assitir alguma coisa de Princess Nine, porque com certeza vale a pena! Ah, uma boa notícia! O Shin Seiki disponibilizou a primeira fita de Princess Nine legendada em português. Se você está curioso e não tem internet rápida, é uma boa pedida!




Webmistress: Valéria "Utena-sama" - 09/03/2003



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