Sumire Iwaya seria uma mulher bem sucedida em qualquer lugar do
mundo. Aos 27 anos, linda e alta, formada pela melhor universidade japonesa, a Toudai (Tóquio Daigaku), e com pós-graduação em Havard,
ela trabalha no
setor
de relações internacionais de um grande jornal. Entretanto, Sumire, ou Iwaya-san, como é chamada por todos, é extremamente
infeliz. Desprezada pelos colegas de trabalho (homens e mulheres) por ser competente e segura demais para uma mulher (***Leia-se:
ela assusta as pessoas ao seu redor.), é
traída pelo namorado que a
trocou por uma mulher que não despertava seus complexos de inferioridade. Ainda sob o efeito da crise e das fofocas do trabalho, ela
termina esmurrando o chefe. Antes que alguém
pense que Sumire é uma desquilibrada,
esclareço que o sujeitinho tentou passar a mão na sua bunda, insinuando que toda funcionária sociável e gentil deveria aceitar
esse
tipo de atitude dos seus colegas homens. Apesar dos problemas, ela se controla durante boa parte do tempo, fingindo
fireza e superioridade. Nenhuma lágrima
ou demonstração de fraqueza,
em compensação, uma terrível dor de cabeça que dura por dias.
Tudo parecia ir muito mal para ela, quando, voltando para casa, ela encontra uma imensa caixa de papelão,
dentro dela, um lindo bishonen desmaiado e ferido. Sem saber o que fazer, Sumire acaba arrastando a
caixa para seu apartamento. Lá ela cuida do rapaz, que está com muita
febre, e no outro dia o deixa dormindo em casa e vai para o trabalho. Depois de dias, é a primeira vez que não tem dor de cabeça.
Chegando ao jornal, descobre que foi rebaixada e transferida para a seção de "Estilo de Vida" que é voltada para donas de casa e
dirigida
por um chefe que odeia "mulheres metidas a inteligentes". Ao voltar para casa, arrasada, Sumire descobre que o rapaz não se foi,
aliás, ele insiste **MUITO**
para ficar. Depois de uma longa discussão, ela permite que ele fique morando com ela, na condição de "animal de estimação" que deve
obedecer,
ser fiel e nunca tentar abusar da intimidade (***Nada de sexo, por exemplo.).
Fora isso, ela o chama de Momo, o nome do cachorrinho que teve na infância e que ao
morrer deixou um grande vazio em
seu coração.
Momo, ou melhor, Takeshi Gouda, é um bailarino e tem 20 anos. Gentil, de bem com a vida, despreocupado, ele acaba sendo ótima
companhia para
a moça que, depois de muito tempo, passa a ser chamada de Sumire-chan por alguém e sorrir. Com o tempo, surge uma
grande parceria entre os dois e é
com Momo que Sumire pode expressar sua dor, tristeza e frustração, também
é afagando o rapaz que ela libera a sua afetividade reprimida. Mas Momo deve se contentar em ser somente um "pet" e Sumire,
que tinha decidido somente
se envolver com homens que tivessem um cargo mais elevado que o seu e fossem mais altos que ela (***Lembrem-se do antigo
namorado complexado.),
reencontra um velho colega de faculdade, Hasumi, por quem ela era apaixonada. Hasumi, que parece ser um cara muito legal,
também gosta de Sumire e
os dois começam a sair juntos. o problema é: como explicar que Momo, o bichinho de estimação que precisa de tanta atenção,
é um lindo bishonen de 20 aninhos?
Kimi Wa Pet começou a ser publicado em 2000 na revista Kiss, que é voltada para um público
composto por colegiais e mulheres jovens,
e foi concluído em 2005, contando com 14 volumes. Com seu humor, uma pitada de erotismo e,
porque não dizer, crítica social, é um grande sucesso. Tanto que sua autora, Ogawa Yayoi, arrebatou,
em 2003, o 27ª Kodansha Award na categoria
Shoujo mangá. Neste mesmo ano, Kimi Wa Pet saiu das páginas da Kiss e tornou-se uma minissérie live action (dorama) em 10 capítulos.
Esta minissérie, aliás,
enfoca muito bem as pressões e a discriminação que as mulheres japonesas sofrem no mercado de trabalho e no dia-a-dia,
mostrando como são pressionadas
a serem submissas e se fingirem de idiotas para serem "amadas" e conseguirem um marido. Lá as humilhações e
perseguições sofridas por Sumire
são bem maiores, enquanto no mangá a autora, com suas personagens de bocas carnudas,
investe mais no humor e nos rolos de seu relacionamento amoroso com Hasumi e Momo. Como o sucesso de
Kimi Wa Pet continua, talvez
possamos ainda ver um anime, como aconteceu com Gokusen.
Deu para perceber, Kimi Wa Pet retrata uma situação recorrente: duas pessoas muito diferente dividindo o mesmo teto. A
grande sacada é a construção das personagens, seu aprofundamento psicológico, e a extrema diferença que as separa. Tanto
Sumire quanto Momo
são personagens bem legais, os coadjuvantes (Hasumi, Yuri, a amiga de infância de Sumire, entre outros) são bem articulados,
e a vida da protagonista são meio que um retrato daquilo que as mulheres japonesas que optaram por uma carreira
tem que enfrentar. Apesar de ser um josei e bem diferente do tipo de historinha shoujo conhecida dos
brasileiros, Kimi Wa Pet
teria tudo para ser um sucesso. Só para se ter uma idéia, a série já chegou aos EUA e Itália, com possibilidades de publicação
em outros países Ocidentais.
Para quem se interessou pelo mangá, ainda é possível encontrar as traduções feitas por fãs
no Mirc ou usando Kazaa e E-Mule. Já o live action, que é muito bom (***E o Momo é uma gracinha!),
pode ser baixado
deste site. Não perca a chance, pois como sempre, as possibilidades de publicação
em nosso país são remotas, já que o investimento nos shoujo mangás é quase zero. Visite também o site oficial da autora, pois além de informaçãos
sobre suas obras, em inglês e japonês, ainda há imagens bem legais disponíveis. Ah, a atriz que faz a Sumire é a mesma que
fez a Taka do Último Samurai. Um amigo bateu o olho e reconheceu... já eu...