A Locomotion (*que hoje virou Animax*) presenteou, no ano de 2000,
os fãs de
animação japonesa com várias surpresas, e entre os animes exibidos estava uma pequena pérola, versão animada
de um clássico do shoujo da década de 70. Sukeban Deka, de autoria de Shinji Wada que, nos anos 70, era um dos poucos homens a
ainda escrever e desenhar shoujo mangá. A série foi publicada na
Hana to Yume, a mesma de Fruits Basket, sendo um marco em seu tempo:
o primeiro shoujo policial. Com
com altas doses
de ação e uma violência crua, Sukeban Deka foi sucesso de crítica e público.
O mangá é de 1976 e teve 22 volumes,
terminando a sua publicação em
1982. A proposta inicial do autor era a de que a protagonista fosse uma mulher adulta, mas os editores da revista achavam que
isso não
funcionaria em uma revista para adolescentes, assim se impôs o princípio da
liminaridade, isto é, os heróis e heroínas devem ter mais ou menos a idade de seus leitores. Apesar de ser a obra mais conhecida
de seu
autor, as três séries live action, parecem ser no Japão bem mais lembradas que o mangá original.
Sukeban Deka
só ganhou uma versão anime em 1991. Isso não é de se espantar, vide outro clássico
dos anos 70,
Brother, Dear Brother de Ryoko Ikeda. Apesar dos poucos sites que tratam da série apontarem que
a história do mangá
foi toda comprimida em 2 OVAs - com roteiro de Takeshi Hirota - isso não é verdade. Como agora tenho os dois primeiros volumes
bunko nas mãos, sei que os OAVs cobrem, se muito, os três primeiros volumes originais. Está quase tudo no anime e o
que saiu - como a experiência de Saki na prisão logo no primeiro volume - teria cabido sem problema. As opções
feitas pelo anime é que podem desagradar e só.
Eis um breve resumo: Saki Asamiya é uma delinqüente (sukeban) que está cumprindo
pena em uma casa de detenção barra pesada.
Conhecida por não levar desaforo para casa e por tentar fugir várias vezes,
é escolhida para se tornar uma agente (deka) disfarçada da polícia.
Se Saki não aceitasse a missão, sua mãe,
que estava no corredor da morte, teria sua sentença aplicada com maior rapidez. A moça aceita e
retorna à sua antiga escola pra investigar três irmãs capazes dos piores crimes para conseguir
atingir seus interesses: poder, dinheiro, e fama. Aliás, uma das irmãs é capaz realmente das
piores atrocidades, inclusive contra suas próprias maninhas. Como Saki tem um
histórico sujíssimo (*e isso faz parte do seu disfarce*), ela acaba atraindo inimizades e a perseguição
do subdiretor que a considera uma maçã podre. A arma de Saki, além de sua
grande habilidade em artes marciais, é um inacreditável iô-iô especial da polícia.
Sukeban Deka é uma dessas histórias que a primeira vista as pessoas não identificam como shoujo,
pois a história nada tem a ver com o que tradicionalmente tem chegado no Brasil. Entretanto,
lá estão os dramas humanos, a perspectiva feminina mesmo que em um ambiente de violência, e
outros traços tão característicos do gênero. O character design, bem década de 70 (*Eu adoro
mas tem gente que não gosta...*) brinca com certos clichês do gênero como como colocar em cena uma mocinha de
longos cachos dourados e
modos de grande dama, só que em Sukeban Deka, a tal moça é uma vilã capaz das piores atrocidades e cujos olhos
imensos e melosos, durante boa parte do tempo, adquirem um caráter maligno nos momentos cruciais da história.
Já Saki é um genuíno exemplar da longa linhagem de heroínas de cabelos coloridos, que já apareciam assim
nas capas dos mangás dos anos 70. Ela tem
longas madeixas cor-de-rosa como a Utena do anime. A animação abaixo do
padrão dos animes atuais e a dublagem
deficiente (*A Locomotion é péssima nessa área*) fez com que muitos fãs de anime
simplesmente desprezassem o OVA que passou no Brasil, perdendo a oportunidade de conhecerem
uma personagem fascinante e que marcou sua época, dentro e fora do gênero shoujo.
Depois de muitos anos, finalmente em 2004 o mangá de Sukeban Deka começou a ser reeditado.
Foi uma boa surpresa receber o meu primeiro volume e ver a qualidade do material: impressão, formato maior, muitas páginas coloridas.
O traço original também é simpático e a trama básica do OAV está toda em um volume e meio dos bunkos.
Para encerrar,
digo que apesar de desconhecida por aqui, Sukeban Deka ainda é lembrada no Japão e é mencionada em alguns animes.
Na primeira série de OAVs de Cutey Honey, por exemplo, a heroína se transforma em Saki Asamiya. Outra homenagem
parece que vai ser prestada no anime das Meninas Super Poderosas que será feito pela Toei. Duvida, clique
(1-2) e
veja como Florzinha, seu rabo de cavalo e o iô-iô que lhe deram como arma não é uma referência direta a primeira
heroína policial dos shoujo mangá. ^_^