Folhear o mangá de Akisato Wakuni
foi uma grande surpresa. Apesar de shounen-ai, ele não lembra em nada em estilo as obras que andam
na moda, com seus ukes e semes, que
são de cara identificadas pelos fãs. O traço é realista (**para um shoujo mangá, bem entendido isso**),
a narrativa é direta (**pelo menos eu entendi quase tudo sem ler**),
e a representação da vida dos homossexuais me pareceu realista. Muito parecido com alguns bons filmes sérios que eu já assisti.
O volume que comprei é uma republicação de dois mangás que acompanham a vida da mesma protagonista Tomoi Hisatsugu e que foram
publicados na revista Flower Comics.
Nemureru Mori no Binan (O Belo Adormecido na Floresta), de 1986, conta como o jovem médico, Tomoi Hisatsugu,
parte para Nova York, em 1982, para fazer residência e fugir do clima repressivo do Japão. Percebendo que não se "encaixa"
e sabendo que a família nunca aceitaria a sua condição, vê os EUA como uma possibilidade de nova vida.
Em Nova York, conhece o médico alemão Richard Stein, termina se apaixonando,
e vivendo um romance com outro médico, uma cara visivelmente mais experiente. Enquanto isso,
começam a aparecer homens com sintomas de uma doença desconhecida, que deixa Tomoi e outros médicos intrigados.
Com Stein, o jovem acaba provando um pouco do estilo promíscuo e
descompromissado que parte da comunidade gay parecia levar antes
da explosão da AIDS. Seu relacionamento não dura muito.
Pelo que vi, Tomoi quer exclusividade e o amante
"aventuras". Fora isso, a morte de um ex-amante de Stein aometido da "estranha doença" que começou a aparecer entre os gays faz com
que Stein decida voltar para a Alemanha.
A segunda parte da história, Tomoi, de 1987, começa com Tomoi visitando os pais no Japão, onde se convence
definitivamente que ali não é o seu lugar. Fora isso, descobre que
os pais desejam que ele aceite um casamento arranjado (**algo comum**) mas o jovem não se submete e ainda tenta conquistar
um amigo de infância. De volta à América, Tomoi conhece o jovem dentista Marvin Willians que se torna seu novo amor.
Só que o namorado, além de envolvido em um casamento infeliz,
começa a passar mal constantemente, ter febre e apresentar úlceras pelo corpo, inguas e
outros sintomas que deixam o médico Tomoi muito preocupado. O rapaz estava com
Aids e Akisato Wakuni foi a
primeira pessoa a falar disso em um mangá. Só que Marvin não morre em virtude da doença e, sim, ao se jogar na
frente de uma bala que tinha Tomoi como alvo. A assassina era a esposa de Marvin.
A terceira parte da história mostra Tomoi desesperado em busca da morte. Só
para se ter uma idéia, ele se engaja em uma organização tipo "médicos sem fronteiras" e
parte para o Afeganistão em plena guerra contra os Soviéticos (**Eles tinham invadido o país em 1979**).
Lá ele conhece um rapaz e sua irmã.A menina - e só sei o sexo por causa de uma resenha que li faz tempo -
veste-se de garoto e tudo lembra um pouco a situação triste do filme Osama.
Pelo que eu entendi, alguém tinha
tentado violentá-la, e tornando-se um "homem", ela poderia se proteger melhor e sair da segregação a qual as mulheres
eram condenadas.
Só que o irmão da garota morre em um bombardeio. O trauma é tamanho que a
menina para de falar. Tomoi a adota e passa a ter uma razão para viver de novo.
Infelizmente, o vilarejo onde residem é atacado e a menina recupera a voz somente para avisar Tomoi do
perigo. Bombas, escuridão e Tomoi recupera os sentidos. Está ferido e não muito longe dele temos escombros e o que restou da menina:
um braço decepado.
Tomoi mostra que nem sempre a vida sorri para a gente e a guerra é cruel, não um passeio no parque com heróis
bonitos e limpinhos. É um excelente mangá e tem potencial para atrair até os homossexuais de verdade e não somente o
pessoal que curte shounen-ai e yaoi. Seria magnífico ver esse mangá publicado em nosso país. Gostei muito
da aquisição e fico contente por ter lido sobre a série pela primeira vez na Anime-EX
especial História do Mangá. Lá, Tomoi estava na seção "Imortais" quwe falava de sujeitos que podem viver eternamente mas
desejam a morte - como vampiros e afins - mas mesmo se esforçando muito, não conseguem encontrar a
morte. Meu interesse foi reforçado pelo fato da série estar listada entre os shoujo mangás obrigatórios no site do antropólogo
Matt Thorn e de ter recebido atenção especial
no livro
Dreamland in Japan
do Schodt. Certamente os autores estavam certos, pois Tomoi é um dos mangás mais sensiveis e humanos que já vi. Espero que um dia alguém
se disponha a tranformar a obra em filme ou anime.