Fazia tempo que eu queria colocar uma seção
falando sobre esse tipo de anime e mangá que parece atrair cada vez mais atenção dos fãs Ocidente:
as histórias produzidas por mulheres e para mulheres centradas em romances homossexuais. Se você não se interessa pelo assunto,
pode se dirigir à outra seção do site. Não pense entretanto que terá que fazer isso por causa de algum conteúdo "proibido
para menores" porque o que vai encontrar aqui é somente a minha reflexão sobre o assunto.
Antes de mais nada, é preciso marcar que os mangás shoujo centrados em relacionamentos homossexuais precedem a
cunhagem do termo YA-O-I. Esse termo aliás surgiu não no universo mainstream mas no mundo alternativo das
feiras de doujinshis e é uma sigla para YAma-nashi, Ochi-nashi, Imi-nashi
que quer dizer "sem climax, sem objetivo, sem significado". As histórias yaoi
portanto, surgiram
primeiro, no meado dos anos 80, em forma de paródia feita por mulheres fãs de mangás em cima de
personagens famosas de animes e mangás tipo Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco. Sabe aqueles garotos hiper-machos que
passavam volumes e mais volumes de mangá (ou capítulos e mais capítulos de anime)correndo atrás de seus arquinimigos, sem dar bola nenhuma
para aquela menina capaz de fazer tudo por ele e sempre disposto a se sacrificar pelos seus amigos (homens)? Pois é, eram exatamente esses os sujeitos
os mais propensos a estrelar os primeiros quadrinhos Yaoi. Mas por que falei primeiros? Exatamente porque
o Yaoi invadiu o quadrinho mainstream e hoje temos um número grande de revistas,
tanto para adolescentes quanto para mulheres adultas,
com histórias Yaoi. Mesmo revistas tradicionais como a Margaret
publicam vez por outra mangás Yaoi como foi o caso do pioneiro
Zetsuai Bronze 1989. Os quadrinhos com temática homossexual no entanto
são anteriores ao Yaoi e é preciso explicar isso.
Ainda na década de 70, momento de grande criatividade e efervescência
dentro do shoujo mangá, surgem as primeiras histórias com temática homossexual ou que insinuavam esse tipo de relação.
Essas histórias eram originais
e se passavam geralmente, como a maioria dos shoujos da época aliás, fora do Japão, muitas vezes em colégios
internos europeus do século XIX. Escritas e desenhadas por autoras do quilate de Hagio Moto e Takemiya Keiko,
essas histórias, que eram centradas menos no sexo e muito mais no relacionamento entre as personagens, alcançaram
grande popularidade. Tooma no Shinzou (O Coração de Thomas) e Kaze to Ki no Uta (A Canção do Vento e das Árvores) são
os melhores exemplos dessa primeira incursão. Percebendo o filão a ser explorado, surgiu em
1978 a revista bimestral June especializada em mangás com histórias sérias e dramáticas, centradas
na temática do amor homossexual. Sucesso até hoje, a
June firmou o estilo, gerou filhotes (outras revistas, romances) e
se mantém forte até hoje. Mas vejam bem, essa revista não se tornou uma espécie de gueto para as histórias shonen-ai,
simplesmente passou a ser a vanguarda de um estilo que se fazia e se faz presente em várias publicações, mesmo aquelas que
trabalham com temáticas variadas.
Podemos estabelecer sem medo de errar que esse tipo de história agradas às japonesas e tem inclusive gerado a representação (cada vez mais disseminada na cultura pop nipônica)
de que o homem ideal para toda a mulher seria o homossexual. No entanto, essas histórias não agradam ao público homossexual japonês que não se reconhece dentro
dos romances idealizados produzidos por mulheres. Alguns especialistas em shoujo mangá como o antropólogo Matt Thorn buscam
algumas explicações (porque não existe somente uma) para o sucesso dessas histórias entre as japonesas. A primeira seria a de que os romances shonen-ai
representam um relacionamento mais equitativo entre homens e mulheres, pois sendo ambas as personagens masculinas gozariam de total liberdade para se expressar, o que em uma sociedade como
a japonesa nem sempre é possível, principalmente para as mulheres. Logo, esses mangás seriam representações dissimuladas de relacionamentos heterossexuais. Outra explicação é a de que
reforçariam uma
idealização de romances com características não-agressivas e de subordinação das mulheres, sendo encaradas positivamente por meninas que buscam aprender sobre os relacionamentos amorosos sem
se sentirem invadidas e oprimidas pelo poder masculino ameaçador e muitas vezes violento(situações de estupro ou quase estupro mesmo entre os pares heterossexuais
mais cândidos de mangá não são raros). Daí a representação também de personagens quase sempre desprovidas de características masculinas secundárias como a
barba e a presença constante dos bishonens (normalmente um dos componentes do casal homossexual sempre é bishonen). Existe também, é claro, a influência do padrão de beleza japonês que valoriza o que é delicado e pequeno, e é
aplicado indistintamente
à homens e mulheres. Bem, não existe consenso sobre o porquê do sucesso das histórias com temática homossexual mas o fato é que o publico feminino japonês não para de demandar mais e mais material para alimentar o arquivo das
suas representações e práticas cotidianas. Esse gosto é tão pronunciado que cada vez mais se alimenta e é alimentado
pelos animes e mangás mainstream, sendo talvez os exemplos mais conhecidos entre nós, os das obras
das meninas da CLAMP
que sempre colocam situações, relacionamentos (reais ou sugeridos) e personagens que sugiram um ar
shonen-ai. Vide o exemplo de Lantis e Águia em
Rayearth ou de Yukito e Tooya em
Card Captor Sakura.
Mas voltemos ao Yaoi, esse como dissemos surgiu como paródia, centrado na sátira à determinado tipo de personagens. Hoje,
entretanto, com a entrada no circuito mainstream o
Yaoi passa a significar também histórias centradas em relacionamentos homossexuais que tem no sexo explícito
o seu ponto forte. Vejam então a diferença entre shonen-ai, que se centra no relacionamento e tem no sexo um detalhe, e o
Yaoi que tem no sexo seu ponto forte. Assim, dentro de mangás e doujinshis
Yaoi vale tudo: sadomasoquismo, estupro, pedofilia (todas essas temáticas muito exploradas pelo hentai que seria
os quadrinhos pornográficos por homens e para homens no Japão) e, também, sentimento. Os fãs de
Yaoi são ardorosos e o gênero hoje é cada vez mais difundido contando já com uma série de animes e mesmo jogos para computador.
Aqui no Ocidente (Brasil incluso), conforme a febre dos animes e mangás se
transforma em algo não passageiro o número de fãs do gênero cresce cada vez mais. E não adianta reclamar, bastou
uma personagem gerar dubiedade (ou não) ela pode se tornar protagonista ou coadjuvante de um fanfic ou fanart
Yaoi. Como a onda transcende aos animes não raro filmes de sucesso, como Harry Potter ou O
Senhor do Anéis também acabam gerando farto material Yaoi fácil de encontrar na rede.
Assim, só para reforçar o que foi dito, é preciso ter em mente que todo material Yaoi
é obrigatoriamente material shonen-ai
mas o inverso, não. Eu, particularmente,
aprecio o shonen-ai que segue muito mais aquilo que me fascina no shoujo como um todo que é
o aprofundamento das personagens e dos relacionamentos. Me irrita particularmente na maioria do material
Yaoi que tenho visto o entrelaçamento da idéia de que sexo e prazer estariam sempre junto com a violência. Essa
característica, só vem reforçar uma idéia de pornografia que se acenta em moldes masculinos do que uma reinvenção feminina
do que poderiam ser os relacionamentos sexuais. No entanto, me instigam muito as motivações que levam o shonen-ai
e o Yaoi a serem um sucesso no Ocidente (assim como no Japão) enquanto muitas fãs (homens que admitem
gostar desse tipo de histórias são raros) rejeitam veementemente os animes e mangás com temática shoujo-ai
e Yuri como se o homossexualismo (ou a representação do amor heterossexual em um par homossexual) fossem admissíveis
mas os relacionamentos entre mulheres (e aí não há como negar o que está explícito) fossem algo espúrio. Mas guardo esse assunto para um próximo artigo que será
escrito o mais breve possível. Quem tiver algo a acrescentar, criticar ou corrigir na minha exposição pode entrar em contato ou deixar o seu registro no guestbook
(livro de visitas) ou fórum da página.