Yuri e Shoujo-Ai:
Um assunto que precisa ser discutido


Este tema pode parecer polêmico aqui no Brasil, e recentemente tivemos mostra disso com a atenção em torno da novela "Mulheres Apaixonadas" e "Senhora do Destino". Entretanto, no Japão Nana de Ai Yazawa "as meninas que amam meninas" são muito freqüentes tanto nos animes quanto nos mangás. Assim como fiz com o yaoi e o shonen-ai, é preciso falar um pouco de como essa questão tem aparecido nos shoujo mangá.

Os termos "yuri" e shoujo-ai", associados a um dos inúmeros subgêneros do shoujo, estão cada vez mais presentes na net e na boca dos fãs de anime e mangá. Ambos se referem aos romances entre mulheres. Algumas pessoas, como eu mesma, tendem a associar "yuri" a histórias que tenham no sexo o seu foco principal e "shoujo-ai" (shoujo=menina/moça, ai=amor) ao romance, que pode ou não ter implicações sexuais. A fronteira entre os dois termos, entretanto, é bem fluída, assim como acontece com os termos "yaoi" e "shonen-ai". Obviamente as relações entre mulheres estão presentes tanto no material shoujo quanto no shonen e, por isso, muitas pessoas não fazem distinção entre yuri e hentai, chamando de yuri qualquer material que apresente sexo entre mulheres. Eu, entretanto, não chamo de yuri o material hentai que é feito para o público masculino e que se utilize de relacionamentos lesbianos. Para mim eles são coisas distintas, mesmo sendo ambos pornografia, e a produção hentai - doujinshis Inclusos - não me interessa nesse texto. O que importa aqui é o material produzido por mulheres e para mulheres, e não os fetiches masculinos em relação às relações lesbianas. Se alguém quiser visualizar como isso se materializa de forma mais light, basta pegar qualquer volume de Love Hina.

"Yuri" em japonês quer dizer lírio e passou a estar associado ao lesbianismo. Utena e AnthyNão concordo com algumas coisas que já li a respeito como, por exemplo, que esse tipo de flor esteja sempre presente quando existe o romance, ou sugestão de romance, entre mulheres. Tenho mangás onde o lírio nem é representado. Assim, fui buscar informações em outras fontes. De acordo com um dos melhores sites sobre a questão, o Yuricon, o termo está associado ao mundo das lesbianas, reais ou imaginárias, faz muito tempo, mas ficou consagrado quando um redator de uma revista gay dos anos 70 denominou as lesbianas japonesas de "yurizoku" (tribo do lírio), enquanto "barazoku" (tribo da rosa) estaria associado ao mundo homossexual masculino. De qualquer forma, o termo só serve para dar nome a uma prática social bem compreensível. Afinal, em uma sociedade como a japonesa onde durante muito tempo os papéis masculino e feminino foram rigidamente estabelecidos, e muitas vezes mesmo o mundo de homens e mulheres pouco se tocava, surgiu uma cultura tipicamente feminina. Esta mesma que possibilitou a criação de todo um mercado de quadrinhos dominados por mulheres e voltados para um público de meninas, moças e mulheres.

Somado a isso temos a ausência da condenação religiosa, que no Ocidente está associada ao Cristianismo e suas mais variadas igrejas. Nesse contexto as amizades entre mulheres - assim como as entre homens - dêem uma olhada no excelente filme Arte de Chiho Saito Gohatto/Taboo para terem uma idéia - de caráter sexual ou não, eram, e ainda são, muito comuns. A grande pioneira na representação desses relacionamentos, antes do boom do mangá, foi Yoshiya Nobuko (1896-1973), autora das chamadas "Hana Monogatari" (Lendas das Flores), seus contos e romances geralmente mostravam meninas adolescentes, estudando em colégio internos femininos, seus relacionamentos afetivos (afetivo aqui não significa obrigatoriamente sexual), e como estas meninas se tornavam (eram construídas como) mulheres.

Como eu já sinalizei anteriormente, os relacionamentos entre meninas nos mangás estão presentes desde pelo menos os anos 70. Mesmo que timidamente, autoras como Ryoko Ikeda ajudaram a construir esse universo. Marcante, sem dúvida, foi a Rosa de Versalhes, e mesmo que no mangá a heroína fosse absolutamente heterossexual, sua proximidade com outras mulheres era muito grande e o amor que as moças devotavam a Oscar, em especial Charlotte e Rosalie, era mais do que evidente. Em seu grande clássico Ikeda não desenvolveu a questão, cortando qualquer possibilidade de relacionamento homossexual. Já em uma obra posterior, Oniisama E, não acontece o mesmo e a autora questiona novamente os papéis de gênero e retrata com muita ternura o romance entre duas adolescentes em uma escola feminina de elite. Kaguya Hime Mas Ikeda também escreveu uma das primeiras histórias adultas - e trágicas - sobre a questão. No seu mangá intitulado Claudine, Ikeda mostra o drama de uma mulher que, por ser lésbica, não consegue se enquadrar e termina se suicidando. Interessante é que apesar de nos mangás esses relacionamentos ficarem explícitos, nos animes shoujo - geralmente dirigidos por homens - eles são esvaziados de seu sentido original, caso da Rosa de Versalhes, ou mesmo transformados em tragédia, coisa passageira, ou coisa de menina, como em Oniisama E. Em contrapartida, quando é o erotismo voyeur que está em jogo a questão é amplamente contemplada, seja em hentais como o clássico Amy, my Baby, ou em animes mainstream como Love Hina e El Hazard.

Se o pioneirismo coube aos anos 70, outras obras levaram a questão adiante de forma mais decidida e aberta como em Paros no Ken - que não foi transformado em anime - e Sailor Moon, ou menos explícita como nos mangás de Shoujo Kakumei Utena e Sakura Card Captors. De forma explícita, ou não, apresentado como uma amizade mais intensa ou envolvendo sexo, visto como rito de passagem, tendo final feliz ou trágico, os relacionamentos entre mulheres estão sempre presentes dentro do shoujo mangá. Agora, quando o assunto é anime shoujo a coisa vem sempre um pouco velada ou não vem, já que boa parte dos mangás com essa temática não são animados. Claro que não existe regra nesse sentido e os anos 90 tiveram como mostra o Shoujo Kakumei Utena, principalmente o movie, e Sailor Moon.

Entre as fãs de shoujo, tenho percebido uma explícita anime de preferência pelo yaoi. Em alguns casos, a resistência ao yuri/shoujo-ai é imediata e não raramente a gente ouve um "Não curto essas coisas entre mulheres, não.". Nota-se que para muitas fãs,Ilustração anunciando o
 esperado anime (2004): Maria-sama ga miteru existe a idéia de que o yaoi não ameaça a imagem de ninguém, enquanto o yuri e o shoujo-ai soam quase como uma declaração de orientação sexual. Afinal, não dá para desmentir o fato de que nos mangás e animes está realmente ocorrendo um romance lesbiano. Já no yaoi, alguns autores argumentam, o que estaria sendo representado, pelo menos nos quadrinhos mainstream, seria um relacionamento heterossexual idealizado. (Para maiores informações: yaoi). Muitas fãs, muito mais por desconhecimento do que má vontade, também só conseguem identificar a produção yuri com o hentai, já que esse material se encontra com muita facilidade na net. Um fenômeno associado a isso tudo é a apropriação das personagens de shoujo mangá (Utena-Anthy, Haruka-Michiro, Tomouyo-Sakura) por fãs homens que produzem material hentai muitas vezes carregado de violência e situações humilhantes. E como a oferta de material mais picante é limitada, muitas fãs de yuri e shoujo-ai acabam tendo como referência materiais shonen, como o mangá Hen, ou mesmo hentai. Tudo isso, eu diria, é influenciado pelo preconceito arraigado na nossa sociedade, que até já consegue "suportar" a homossexualidade masculina mas vê a homossexualidade feminina com olhos muito pouco gentis, já que essa põe em risco o predomínio masculino por eliminar a sua presença.

Sinal de mudança dos tempos, pelo menos no Japão, foi o lançamento da revista Yuri Shimai em agosto de 2003, com uma defasagem de mais de 20 anos em relação à primeira revista shonen-ai - a June!!! Essa revista traz somente histórias com temática levemente Capa do Primeiro Volume da Yuri Shimai yuri (estou pensando em sexo explícito aqui) e shoujo-ai voltada para adolescentes e que trazia séries longas, one shots, e light novels, isto é, capítulos de livros ou contos. A Yuri Shimai saia trimestralmente e durou muito pouco, sendo extinta em fevereiro de 2005, contando somente com cinco números. Só que o espaço não ficou vago e as mangá-kas desempregadas, pois uma nova revista, a Yuri Hime foi criada. Seu primeiro número saiu em julho de 2005 e vocês podem visitar a página oficial da revista.

Alguns dos mangás já podem ser conseguidos com o pessoal do #Lililicious que faz um trabalho excelente e também está se dedicando a traduzir mangás clássicos como Oniisama E e Shiroi Heya no Futari, ambos dos anos 70. Eu recomendo que as pessoas vençam o preconceito e dêem uma olhadinha, pois as histórias geralmente são muito sensíveis e bem construídas. Além disso, seguindo os passos de muitos fãs de Xena e Gabrielle - personagens que são muito amadas por muitos fãs de anime e mangá - é cada vez mais comum a produção de fanarts e fanfics com temática yuri ou shoujo-ai. Mesmo que a quantidade ainda seja pequena, é um começo.

Apesar de um pouco desprezadas e estigmatizadas as situações shoujo-ai/yuri estão presentes em muitas obras, mesmo que para isso os fãs precisem "ler nas entrelinhas". Algumas personagens como Haruka de Sailor Moon e Juri do anime de Utena (no mangá ela não é lesbiana) são muito carismáticas e sempre dominam a cena quando aparecem. Juri, aliás, é uma das minhas personagens de anime favoritas: excelente espadachim, sempre elegante, inteligente e com um drama pessoal que é muito tocante. Fora isso, torna-se comum a produção de animes declaradamente shoujo-ai, caso de Maria-sama ga Miteru e do novíssimo Simoun que sai na revista Yuri Hime.

Uma das coisas que mais me incomodam no material yuri e shoujo-ai, entretanto, é a presença, em algumas obras, de uma representação muito rígida de papéis com a menina machona/tomboy de cabelo curto, alta, forte e destemida, que fala usando "boku" ao invés de "watashi", que ama a menininha pequena e meiga, no mesmo estilo do que acontece com o uke e seme do yaoi. Engraçado é Yuri Hime: a nova revista que nos mangás da década de 70, pelo menos na representação visual das meninas, isso não ocorria, e o anime de Utena acaba herdando um pouco disso. Prevalece ali o modelo da irmã mais velha, "onee-sama", que pode ser visto em Maria-sama Ga Miteru, Em Anatolia Story (Yuuri-Alexandra), em Oniisama E, e tantas outras séries.

Muitas pessoas associam essa caracterização do par lesbiano à influência do Teatro Takarazuka. Criado em 1914, o Takarazuka junta várias influências, como o teatro de revista, musical americano, Kabuki, Nô, teatro, entre outros. Nele as mulheres representam tanto os papéis masculinos quanto femininos e recebem um treinamento muito rígido para incorporarem os maneirismos de gênero, já que as atrizes, ainda na sua formação, são designadas para serem homens ou mulheres e fazem o mesmo tipo de papel durante toda a carreira. Ainda hoje, a idolatria feminina em relação às atrizes do Takarazuka é imensa, principalmente em relação àquelas que fazem os papéis masculinos/otokoyaku. Interessante é que esse tipo de tietagem, que no ocidente soaria como homossexual, acontece também nos mangás e animes shoujo, como em Utena, por exemplo. Mas mesmo essa representação rígida de papéis "femininos" e "masculinos" não constitui uma regra. Agora, uma coisa que me alegra muito é não ter visto (ainda) a representação do sexo ou relacionamento de forma sadomasoquista, com estupros e coisas do gênero, em material yuri/shoujo-ai feito por mulheres e para mulheres.

Bem, é isso! Agradeço muito à amiga Codeína por ter ajudado a revisar o texto e feito algumas sugestões. Pretendo incrementar a seção conforme for conseguindo mais material. Qualquer crítica ou sugestão, por favor, entre em contato. Espero que aqueles que têm preconceito contra o shoujo-ai e o yuri possam dar uma olhadinha nesse material pois, com certeza, é uma parte muito instigante, criativa e sensível do universo shoujo.




Webmistress: Valéria "Utena-sama" - 13/11/2003


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